Se é verdade que as crianças são, por natureza,
irrequietas, barulhentas and so on, também é verdade que os tempos em que
vivemos não são iguais aos que eu vivi, há 30 anos atrás.
E sim, a essência das crianças quando nascem é a mesma
que há 30 anos atrás. Mas os tempos são outros e portanto é natural que o
produto final seja também ele, diferente.
Antigamente as dificuldades de aprendizagem eram
maioritariamente explicadas ora por o aluno ter mais ou menos capacidade de
aprender, mais ou menos capacidade em concentrar-se, mais ou menos apoio em
casa. Hoje em dia adiciona-se a isso tudo a possibilidade de ter um problema
maior. Hoje em dia há mais informação, há mais gente a trabalhar nestas áreas.
E se por um lado isto é verdade, por outro também é
verdade que os miúdos (e nós também! - caramba, quantos de nós estamos em
frente à TV, com o computador no colo e a falar ao telefone?) estão rodeados de
‘incentivos’. A prova é que a Generation Y é uma geração que já tem uma
grande dificuldade em fazer só uma coisa ao mesmo tempo. Ora está a ler um
livro e a teclar no telemóvel, ora está a escrever um texto no computador e no
Messenger, por exemplo). Isto não é hiperactividade. São sinais do tempo.
Todos os dias temos acesso a demasiada informação. E
mesmo para alguém que, como eu, não tem nenhum canal de TV, a sensação pode ser
avassaladora. Basta-me ter Facebook. Separar o trigo do joio não é fácil.
O que é fácil mesmo é saltar de informação em informação e encontrar
informações contraditórias. E como é tão fácil aceder a qualquer tipo de
informação, tornamo-nos pequenos especialistas em determinadas matérias. De médico e de louco todos temos um
pouco, não é? E torna-se assim tão fácil chutarmos um ‘é hiperactivo, o
rapaz!’ ou ‘se aos 5 anos já consegue escrever/ler/fazer o jogo XPTO é porque é
sobredotado’. E pimbas, já levou com uma etiqueta em cima!
E quando as crianças passam a ter ou estão em vias de
ter uma etiqueta, a nossa angústia é tal que temos que consultar. Consultar e
saber o que é que ela tem. Consultar para saber se a etiqueta é cor-de-laranja,
salmão ou amarela.
E muitas das vezes não damos tempo ao tempo. Muitas
das vezes, com o cansaço, com o excesso de informação, com os conselhos dos
nossos amigos ou com o olhar desconfiado de pessoas que nem conhecemos mas que
nos mandaram um ar de reprovação, não conseguimos ver se aquilo é a natureza do
nosso filho ou se é uma fase. Não conseguimos pensar direito. Temos medo.
Sentimo-nos de tal forma pressionad@s em ter o filho perfeito, angustiad@s por
não conseguirmos modificar comportamentos que, mais cedo ou mais tarde,
deixamos de acreditar que talvez ainda possamos nós, sozinh@s, a resolver a
situação. E então enviamos os miúdos a uma consulta com o pediatra ou com o psi.
Estou a dizer que não deves ir ver um especialista?
Não, não estou! Estou a dizer que se isso é importante para ti, porque te pode
deixar mais tranquila, então vai. Isso não quererá dizer que tenhas de sair de
lá com um plano de consultas semanais ou quinzenais. E digo-te mais: caso saias
de lá com um plano para o teu filho, é bom que também tenhas um plano para ti.
Porque não é possível que um trabaho bem feito, nestes casos seja unilateral.
Estás implicad@ nisto até ao pescoço! Então que tenhas um plano também. Fala
com o especialista que consultares para verem qual é o teu papel. Tu tens um
papel fundamental de ajuda. Não podes ficar de fora pois não?
Mas estou também a pedir-te que páres e olhes com olhos de ver. Que páres para
perceber se tens de ajudar o teu filho a gerir a frustração de não ter as
coisas da forma que ele quer (ou a lidar com as birras dele). Se tens de te
sentar ao lado do teu filho a fazer os trabalhos de casa e ensiná-lo a pensar.
A encontrar estratégias para ele perceber uma determinada matéria. A ter
métodos de estudo que lhe serão preciosos quando ele começar a estudar sozinho.
Estou a pedir-te também que vejas se não há muita angústia tua aí no meio e um
desejo de termos, todos, filhos perfeitos: bons alunos, meigos, que se portam
bem, cómicos, empáticos e sensíveis. Quero que penses também há quanto tempo
não tens tempo para ti, há quanto tempo não ‘limpas’ a cabeça e há quanto tempo
andas em piloto automático, da casa para o trabalho, do trabalho para o
supermercado, para a escola, para casa, para os banhos, os TPCs and so on and
so on...
Quero que penses se podes poupar uma consulta e uma
etiqueta.
Não corras porque achas ou te dizem que tens de
etiquetar, porque achas que não és capaz. Não aches nada.
Pára! “Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
E depois sim, aponta e dispara!
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cursos@parentalidadepositiva.com
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