Quando é que eu sei que é a hora certa para a deixar fazer aquela tatuagem?
Quando é que eu sei que é a hora certa para a deixar fazer uma certa viagem?
Quando é que eu sei que é a hora certa para o mudar de escola?
Quando é que eu sei que é a hora certa para lhe dar um ipad/telefone/bicicleta?
Não sei... ou até sei. Quando conhecemos mesmo muito bem os nossos filhos somos capazes de adivinhar. Ou estar bem perto da resposta a essa questão.
Uma criança pode ir dormir a casa de outra aos 4 anos se sentir preparada, segura e o quiser. E os pais deixarem. O mesmo terá de acontecer connosco, pais - estarmos preparados para isso, sentirmo-nos confortáveis com a ideia (sem falar que sabemos bem quem são os adultos que vão ficar com os nossos filhos).
A minha filha de 8 anos foi este verão de férias para casa dos avós, em França. Sabíamos que estava pronta e que este voto de confiança e responsabilidade ia ao encontro do seu processo de crescimento e desenvolvimento. E por estarmos tão certos disto, a experiência foi vivida com imensa tranquilidade cá por casa. É certo que ao fim de 15 dias estávamos todos com saudades uns dos outros mas este sentimento é bom. Sabíamos que estava bem, a divertir-se e que o dia de regresso estava próximo.
O desejo de ir visitar os avós era grande. Quando lhe propusemos a viagem disse que sim cheia de entusiasmo. Em nenhum momento recuou na ideia. Tivemos, então, a certeza que era a hora certa, para ela. E o 'para ela' está sublinhado porque há uma história e uma vivência específica que permitiu que isto acontecesse.
O mais curioso foram as perguntas que vieram de fora, colocadas por adultos:
'E não tiveste medo? Eu, quando vou viajar de avião tenho sempre imenso medo. Se pudesse, não o faria.'
E se é verdade que o facto de uma miúda de 8 anos poder viajar sozinha pode suscitar alguma curiosidade, a verdade também é que os comentários acima têm um efeito que pode ser perigoso:
- criar um medo onde ele nunca existiu;
- enaltecer uma suposta coragem que, neste caso, era visto como uma normalidade. 'Porque razão é precisa coragem para ir visitar os meus avós? Será que há algum perigo? E se sim, onde é que ele está?'
Bem sei que a intenção não era esta. Ainda assim, desejaria que pudéssemos estar mais atentos ao que dizemos. Mostrarmos interesse e curiosidade pode passar por colocar questões que revelem isso mesmo 'Uau, nunca viajei sozinha com a tua idade - conta como foi? O que é que acontece no aeroporto? '15 dias sem os pais - como é que foi?'
Induzir um medo onde ele não existe é que não.
A hora certa não existe nos livros. A hora certa é a de cada criança e, para isso, bastará estarmos atentos. No nosso caso, o facto de lhe termos proposto a viagem também faz parte do processo do nosso crescimento enquanto pais mas também da nossa necessidade em lhe darmos o que ela precisa, a cada passo do caminho. Há dias em que a visão não é tão clara assim. Mas há outros em que é. É estar atento.





