
Felizmente a coisa é virtual. Dá a impressão que anda tudo à turra e à massa mas, felizmente, é tudo na blogosfera e parece não passar daí.
O João Miguel Tavares publicou
mais um dos seus textos - daqueles que se tornam polémicos . A coisa incendiou mesmo quando ele cita o comentário que o Dr. Mário Cordeiro deixa no seu blogue, garantindo assim [consciente ou inconscientemente] que o seu texto de Domingo, no
Público fosse lido e partilhado vezes sem conta. Não sei se isso terá acontecido ou não, mas talvez esta última semana tenha aumentado ainda mais o fosso entre os que advogam a parentalidade cutchi cutchi e os da turma dos mais autoritários.
Eu fui lendo pontualmente o que se ia comentando, deliciada com o esticar da corda do João Miguel e a forma como ele consegue provocar os leitores e obter respostas… animadas.
E não estava a pensar comentar nada do que se foi escrevendo mas hoje o meu primo Miguel enviou-me
um teaser. E depois a Lénia chamou de Parentalidade Positiva à Parentalidade que o Miguel chama Cutchi cutchi. E eu não gosto cá de provocações :D e decidi que uma vez que trabalho nesta área e que me dedico tanto a ela, que estava também na hora de opinar. Vamos por pontos:
1. A Parentalidade Positiva não é Parentalidade Cutchi Cutchi. Parentalidade Positiva [nome pomposo, sim senhora!] é uma filosofia que:
a. Tem por base o respeito mútuo entre pais e filhos e que por isso não vê necessidade de se fazer uso nem abuso das palmadas nem dos castigos.
b. Pais e filhos não são iguais. São pessoas mas não têm direitos nem deveres iguais.
c. Quem orienta é o adulto e não é a criança. Isso não quer dizer que não se possa negociar mas negoceia-se no que é negociável. De resto… mum’s the boss!
2. Não confundir Educação e Parentalidade Positiva [EPP] com as modernices de não se colocarem limites. Na EPP HÁ LIMITES CLAROS, CONCRETOS e JUSTOS.
3. Não faz uso de castigos nem de palmadas por vários motivos. O do respeito pela criança e também por aquilo que o próprio adulto deseja para si.
4. A EPP sabe e não nega que os castigos e as palmadas funcionam. No curto prazo. Mas acredita que os pais não querem ter sempre de usar estas estratégias e por isso existem outro tipo de abordagens que têm em conta não só a natureza da criança como a do pai. E da situação. Para mais sobre isto, por favor lê o blogue ou inscreve-te num dos muitos workshops.
5. O mimo não estraga nem nunca estragou. O que estraga, meus senhores, é a falta de limites. Ou o ‘hoje faço assim e amanhã assado.’
Sobre o ‘desligar-se a televisão quando a criança tem uma questão’… a sério? Quero acreditar que este exemplo foi um bocadinho infeliz. Tenho o ‘besame mucho’ e embora haja muitas coisas interessantes, também há muitas das quais eu me distancio. Nomeadamente sobre a questão do co-sleeping [
sobre a qual escrevi um longo texto] e também a questão de tratarmos as crianças tal como tratamos outros adultos. Eu tenho uma opinião diferente da do Dr. Gonzalez. Crianças e pais não são iguais e não podem nem devem ser tratados de forma idêntica porque, lá está, são diferentes. São pessoas em crescimento. Ponto final. Parágrafo!
Também estou em desacordo quando ele diz que não devemos obrigar as crianças a emprestar os brinquedos aos amigos, por exemplo.
O que é que os pais estão aqui a fazer? A pedir que a criança partilhe com outra um objecto que é seu. Ah e tal mas “o que é que farias se o teu marido te dissesse para partilhares um livro teu com uma amiga tua quando ninguém lhe pediu a opinião?” Ora bem, isso ia depender do livro e da amiga, logicamente mas, na verdade, essa NÃO É a questão. Nem podemos comparar o que não é comparável.
Qual é então a questão? O que os pais querem ensinar aos miúdos é a noção de partilha. E isto é mais comum quando se tratam de crianças pequeninas. Mas [e este é um dos princípios da EPP – Parentalidade Pro-Activa = conhecer as fases do crescimento de uma criança] a criança só adquire a noção de partilha como deve de ser a partir dos 4 anos – até lá é comum vê-la brincar lado a lado e raramente frente a frente. O que não deixa também de ser curioso é que lá pelos 5 ou 6 anos, os pais pedem menos aos filhos para partilharem e ‘respeitam’ mais as suas coisas e os seus gostos.
Se devem continuar a incentivar a partilha? Não sei – isso depende dos valores que cada família tem e se isso é importante ou não. Ou se é sempre importante ou não.
Há também quem diga que não devemos exigir aos nossos filhos o ‘se faz favor’ e o ‘obrigado’. Lá está, tudo vai depender dos valores que são importantes para ti. Não estás a forçar o teu filho a nada. Mas se lhe fores lembrando que há regras sociais de convivência e bem-estar, estás a facilitar-lhe o futuro [o futuro próximo]. Sei de quem nunca tenha precisado pedir aos filhos estas coisas [olha que bom!] mas também sei que, quando achamos que não temos de o fazer, nestas coisas que são, aparentemente, coisas banais, depois as ‘palavrinhas de baptismo’ acabam por faltar…
Não podia estar mais de acordo com o João Miguel Tavares – e olha que já estive em
desacordo com ele – mas educar cansa, tem pouco de romântico. Ser-se pai e mãe é desejar por vezes chegar a casa e abraçá-los. E, no final do dia, estar desejoso que eles vão dormir para que o nosso sossego comece.
E pleaseeeee! Não confundas EPP com falta de limites. A Educação Permissiva e a Negligente, tal como a Autoritária estão tão longe das bases do trabalho que desenvolvo!