Até que ponto temos o direito de partilhar a vida nos nossos filhos, online?

2.5.20
Até que ponto temos o direito de partilhar a vida nos nossos filhos, online?
Não estou a falar da publicação das fotos. Estou a falar da construção de uma narrativa, subjectiva, e que é feita por nós (mães ou pais).

O assunto surgiu durante a Certificação em Parentalidade e Educação Positivas. Falávamos de intimidade e de como, ao longo dos tempos, as palavras associadas foram desaparecendo. Intimidade significa: o que é secreto, o que apenas nos diz respeito, segurança.

Pergunto-me se temos o direito de partilhar a vida dos nossos filhos, numa narrativa que conta as suas frustrações, as suas fragilidades,... a sua vida, através do nosso ponto de vista.

"O João Maria chegou a casa chateado. Disse que o seu melhor amigo andava a ignorá-lo há uma semana e que não conseguia perceber o que estava a acontecer. Coração de mãe sabia que alguma coisa não estava bem mas nunca imaginei isto. O João Maria andava em baixo, irritado e até mal educado. Afinal, sentir-se traído era a explicação para isto. Falámos sobre o assunto, ele chorou e o meu coração ficou pequeno. São as dores de crescimento."

Este texto, que acabei de inventar, garante que a minha audiência se identifica com as minhas dores e com o meu sofrimento. Vejo a quantidade de likes aumentar, leio imensos comentários que relatam histórias semelhantes. E, com isto, um sentimento de pertença e de aconchego.
A história deixa de ser só sobre o João Maria mas passa a ser também, sobre mim, porque me revejo. Na verdade, disse alguém naquela certificação, são histórias que nos inspiram e onde nos revemos. E eu sei que assim é. Percebemos que estamos no mesmo barco. Tomamos consciência que, afinal, não é apenas connosco. Mas, se só olhamos para nós e para a nossa dor, não olhamos para o João Maria cuja história está escarrapachada num feed ou num blogue. E isto, senhores, é só indecente! O João Maria podia ser eu. E partilharem as minhas fragilidades, dores, confessadas a uma amiga, seria a quebra de confiança para todo o sempre.
Mas, dia após dia, post após post, a história do João Maria é colocada (para sempre) online, de acordo com a subjectividade de quem a escreve. No dia em que o João Maria crescer, e quiser construir a sua própria história não poderá fazê-lo, livremente, sem que a mesma esteja, para sempre, indexada à história que narraram anteriormente.

João Maria não é uma personagem de um livro. João Maria é uma pessoa, inteira, tal e qual como eu, cuja mãe ou o pai decidiram usar para ilustrar os seus textos, em troca de uma presença online. Se pensas que é algo sem importância e que todos fazem, pensa de novo. Alguém, que não ele, escreveu sobre ele. Escreveu acerca das suas dores, fragilidades, tristezas. Colocou fotos dele na internet. Uma vez na web, para sempre na web. João Maria terá, para sempre, a sua história, ligada àquela que se tornou pública.

Se continuas a achar que, ainda assim, o importante é que te revês nessas histórias então não estás a ver a questão fundamental e que é o direito à e intimidade da criança e à proteção da sua história e intimidade. A única pessoa que tem o direito de falar sobre as suas fragilidades, dores e fraquezas é o próprio. Seguramente, já ouviste falar da proteção do superior interesse da criança. Aqui tens um belo exemplo disso.


Recordo-me quando conheci as duas filhas de uma blogger, há muitos anos. Encontramo-nos e tive uma sensação constrangedora: não conhecia aquelas meninas mas sabia que uma era birrenta e que a outra atacava a irmã, sem motivos, diariamente. Sabia disso porque lia os posts. Senti-me mal em ter a minha visão já pré-formatada por aquilo que a mãe já tinha escrito e não consegui dissociar-me disso, mesmo tendo consciência disso.

Deixa-me ainda contar-te mais um aspecto importante: Quando fui diretora de recursos humanos, sabes o que fazia quando me chegavam CVs? Pesquisava sobre a pessoa nas redes sociais e online. Em menos de 10 minutos conseguia encontrar muita informação. Ficava a conhecer os hobbies, os gostos, quem eram os membros da família. O tipo de fotos que tirava, os lugares que frequentava. Os amigos que tem. Mas não é isso que todos fazemos, quando queremos saber mais sobre alguém?
Uma vez na net, para sempre na net.







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