Quem disse que não se pode bater?

28.4.20


Ana, 4 anos, chega a casa e diz à mãe que o António lhe tirou a saia e ficou a olhar para ela, só de roupa interior.
- O quê? Como assim? Porque deixaste que ele fizesse isso contigo? Porque não procuraste ajuda da professora?
- Porque ela não estava lá e quando lhe contei ela não podia fazer nada porque não tinha visto. Mãe, eu não sabia o que fazer…
- Da próxima vez tens de te defender, não podes deixar que te façam isso.
(…)
- Mãe, o António hoje partiu a tiara que levei para a escola.
- E tu? De novo, esse miúdo?
- Eu disse que ele não podia fazer aquilo e que não era justo.
- Fizeste bem, espero mesmo que esse menino aprenda que não se pode fazer estas coisas.

Cristina, 10 anos, relata à mãe que a Júlia a empurrou, mais uma vez, no recreio. Ela não chega a cair, mas o grupo das meninas ri-se. A mãe pergunta-lhe o que aconteceu dessa vez. A menina não sabe dizer. Mas admite, firme, que se afastou delas porque prefere ficar sozinha. O pai não aguenta e responde:
- Da próxima vez, empurra-a também. Dá-lhe. Já te disse isso mil vezes. Porque não o fazes?
- Pai, eu queria ter-me defendido… mas a minha mão não obedece ao que lhe peço.

Sabes como se trata um vaso com uma orquídea e um vaso com cebolinho? Não é da mesma maneira. Um pede água uma vez por semana e luz. O outro também pede luz, mas precisa de água todos os dias. O mesmo se passa com as crianças - não podemos servi-las nem pedir as mesmas coisas quando são diferentes.


Vamos falar muito a sério sobre um tema que me preocupa, imensamente, e que é fruto da qualidade dos textos que circulam nas redes sociais e de um discurso de não violência que cria crianças incapazes de se defenderem. Não somos melhores pais porque dizemos aos nossos filhos que não podem bater. Somos melhores pais quando ensinamos os nossos filhos a expressarem as suas necessidades, a controlarem os seus impulsos e a saberem comunicar como deve ser.


Todos desejamos um mundo sem violência e por isso precisamos de prestar atenção à forma como ajudamos os nossos filhos a não serem violentos.


Há crianças que são mais agressivas, por natureza ou pelo ambiente onde vivem. E há outras que são mais serenas ou medrosas. Falar de não-violência, ensinar a gerir o impulso e todos os restantes temas associados a este assunto, tem de ser feito de acordo com a criança e o seu contexto. Primeiro, porque num caso eu quero serenar a agressividade, ensinar a falar em vez de bater e, no outro, quero incentivar a coragem, quero promover a expressão verbal e segurança.

Associado a isto, preciso de saber que, nas idades em que estes assuntos estão a ser transmitidos, as crianças são literais. Ora, quando digo (repito e sublinho) a uma criança que não sabe defender-se que “não se bate”, ela terá muita dificuldade em defender-se. A Cristina, na história acima, com 10 anos, queria defender-se, mas a mão dela não obedecia. A Ana, de 4, por saber que não se bate, por não conseguir reagir nem gritar - pode continuar a não saber fazê-lo quando tiver 14 ou 20 anos e for agredida de outra forma. O sufoco do grito, o pontapé que não sai, criaram, ao longo dos anos, raízes no discurso do “não se bate” e do “se não souberes o que fazer vai pedir ajuda”. Mas os miúdos não pedem ajuda porque, depois, para além de coitadinhos, são queixinhas.


Mas… se bater não está certo, que faço?
Primeiro, quem é disse que bater não está certo?
Se me vêm agredir, se vêm tentar fazer-me mal fisicamente, garanto-te que sei responder na mesma moeda. E dizes tu: mas isso é defenderes-te.

É defender-me depois de ter desconstruído uma série de crenças que ouvi na minha infância.

É urgente ter espírito crítico e ler com atenção o que se coloca pela rede fora. Milhares de páginas defendem o conceito de uma vida sem violência, incentivando o discurso do “não se bate” para TODAS as crianças. Mas esquecem-se de que as crianças são diferentes e ignoram que, nesta pouca idade, estas são literais. E ser literal significa que “não bater” e “defender-se” é a mesma coisa. No pior dos casos, não percebem a diferença… Como o “não se bate” é a frase mais repetida, acabam por não bater, mesmo que isso implique deixarem-se agredir.

Então… Que fazer?
Primeiro: eliminar a frase “não se bate” para estas crianças, de uma vez por todas.
Segundo: ensinar o que é respeitar relações onde nos sentimos seguros. Como são e como nos sentimos quando estamos bem.
Terceiro: ensinar à criança que se não gostou de alguma coisa precisa de comunicar à outra criança isso mesmo. Da forma que entender e souber. E no caso da criança, que é reservada, não se sabe exprimir, perguntar: posso bater? Respondemos simplesmente: faz o necessário para que a outra criança entenda que não gostaste. Explora com ela o que pode fazer, escuta-a e deixa ver o que lhe faz sentido. Não lhe retires a autorização de se defender com o “não se bate”. Porque, volto a sublinhar, se a criança ainda for literal, pode não conseguir agir nem, muito possivelmente, gritar. E vamos sempre a tempo de corrigir, caso seja preciso.


Não estamos a incentivar a violência, mas a expressão livre do que sentimos, do que gostamos e do que não autorizamos, nem queremos. Colocar a tónica no“não se bate” tem um impacto gigante na vida destas crianças, ao ponto de não saberem fazer mais nada do que… não bater. Mas não vão comunicar as suas necessidades nem o que desejam. Como disse, estas crianças - e não as outras. Porque, repito, para o caso de ter escapado alguma linha, as crianças que são agressivas necessitam de acompanhamento e de ajuda, como as agredidas, mas a outro nível.


Por isso, gente boa, é urgente ter sentido crítico. Frases bonitas de paz e amor são muito inspiradoras, mas não servem para todos. No dia em que te agredirem ou te ameaçarem, tu quererás saber gritar, esticar esse peito, olhar bem nos olhos do outro com coragem, sabendo que dentro de ti tens tudo o que precisas para te defender - seja através da força física ou usando o sentido de humor. Mas nada te faltará. Certo?

1 comentário:

  1. Excelente texto! É isso mesmo que tento transmitir aos meus pequenos. Saber afirmar o que sentem/querem/permitem, de preferência sem recurso à violência, mas haverá alturas em que se tem de ter a coragem de recorrer a ela.

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Obrigada por leres e por comentares!
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