O poder dos pais | Super Nanny

15.1.18


"Estás a ver a Sic? Já colapsaste?? SOCORRO!!"

Era assim que começava uma das muitas mensagens que fui recebendo ontem à noite.

Hoje de manhã, continuavam a cair pedidos como 'Temos de fazer alguma coisa, esta vergonha não pode continuar!!'

E todos, à nossa maneira, nos fomos mobilizando. Uns enviaram queixa à Entidade Reguladora da Comunicação, outros à Ordem dos Psicólogos e muitos partilharam a sua indignação nas redes sociais.

A meio da tarde, outra mensagem

"O programa até poder ser muito mau mas mostra que há famílias que precisam de formação e ajuda com os filhos.
4º lugar nas audiências!!!"


Quase ninguém gostou mas quase todos viram o espectáculo. Espectáculo porque se trata de um reality show. Não é uma simulação, não se tratam de atores mas de vidas reais. Concordo, por isso, com o que a minha amiga diz - que muitas famílias precisam de formação (eu diria que todos precisamos de ajuda e acompanhamento naquela que é a nossa função mais importante) MAS essa formação não passa por expormos a nossa vida ao mundo, por muito que possamos considerar pedagógico (não encontro nada de pedagógico nas soluções apresentadas, nem no formato, ainda assim). 
Há quem diga que sempre houve realities shows e que não podemos estar tão ofendidos ou incrédulos. É verdade, mas nenhum, até agora, expunha a vida de uma criança desta forma. Mesmo que, no limite, tudo seja legal - porque há contratos e autorizações assinadas...

Este texto do Observador está muito bem escrito e expõe uma série de factos e entrevistas. Por exemplo, os pais da criança exposta ontem vão ser escutados. Ainda que não tivessem atuado por mal, a verdade é que não souberam proteger a intimidade da filha nem a sua. A nossa função enquanto pais é, antes de tudo, protecção. E talvez por isso precisem, de facto, de formação parental e de um acompanhamento que os capacite para conseguirem mais harmonia e paz em sua casa. Sem alarido, sem exposição. 
Penso muito na criança de ontem (e todas que virão a ser apresentadas nas próximas semanas). O que será que aprenderam com isto tudo? O que pensarão de si, dos seus pais, da proposta que lhes foi feita? Em que é que acreditam agora? 

Todas as relações são complexas e todas as relações têm um grande potencial para serem incríveis!

Sabemos que o inferno está cheio de boas intenções e que a maior parte das pessoas não faz as coisas por mal. Mas se formos a usar este tipo de justificação para tudo na vida, então seremos livres de fazer o que quisermos porque tudo é feito por bem. E a vida real não é nem pode ser assim!

Compreendemos ontem que a educação não se faz com castigos, nem humilhações, nem com tabelinhas, prendinhas ou com 'agora vais parar de fazer birra, está bem?' Tenho a certeza que muitos sentiram vergonha. Outros reviram-se naqueles comportamentos e talvez, desse ponto de vista, o programa tenha tido uma nota positiva caso tenhamos compreendido o impacto imensamente negativo de tais estratégias. Trocar comportamentos por o cantinho do pensamento ou por prendas não traz nada de bom. 

Realities shows sempre houve - os seus objectivos são claros e parece haver uma espécie de ciência e de requisitos a 'picar' para que sejam top! O que mais me deixa apreensiva é, no entanto, saber que há pessoas que aproveitam a miséria humana para além de todos os limites - expondo os miúdos desta forma. E o mais curioso é que, aposto, muitos deles são pessoas de bem, outros com filhos em casa ou sobrinhos na família. Que pensarão hoje, 24h depois do impacto do primeiro programa. A sério? Será que temos a noção que todos, sem excepção, temos responsabilidades enormes nisto tudo. Temos muito que pensar. Muito ainda para aprender. Fico com a sensação  que algo não voltará a ser (pelo menos durante algum tempo) o mesmo. 

'Quando os nazis vieram buscar os comunistas, eu não disse nada, eu não era comunista.
Quando prenderam os sociais-democratas, não disse nada, eu não era social democrata.
Quanso vieram buscar os sindicalistas, não disse nada, eu não era sindicalista.
Quando me vieram buscar, não havia ninguém que protestasse.

Martin Niemöller

Segue-nos aqui:






2 comentários:

  1. Não consegui assistir a + mais do que 2 minutos, senti vergonha alheia, senti uma imensa impotência por não poder proteger aquela criança de ser asam exposta... Não sou exemplo nenhum de mãe mas não precisei de mais de 2 minutos para ver que este não é o caminho. Obrigada Magda por mostrares que há toda uma outra direcção a tomar.

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  2. Ângela Ferreira17 janeiro, 2018

    Bom dia! Realmente expor a intimidade de uma criança na televisão para toda a gente ver não é correto, mas acredito que essa mãe estivesse desesperada! A minha filha de 6 anos está a ser acompanhada por uma psicóloga há perto de um ano, tendo sido diagnosticada com perturbação de oposição e desafio. As coisas não têm melhorado, bem pelo contrário. A entrada para a escola primária só veio piorar as coisas, pois para além de se comportar mal em casa, também o faz na escola e nas actividades extracurriculares. Por vezes é desesperante, pois são situações diárias, com queixas das professoras. Apesar de tudo tem tido muito bom aproveitamento escolar. Conversas com ela existem muitas e ela admite que faz mal e promete que não volta a fazer, mas tudo volta sempre ao mesmo! Eu compreendo a mãe da Margarida, apesar de achar que poderia ter optado por não expor a criança!

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