Medo do escuro | A Praça | RTP 21 Outubro 2015

22.10.15




Todas as crianças têm medo. Do escuro, do pai natal, do lobo mau, do barulho dos balões a estoirar. E de outras coisas. É normal e é mais normal ainda em certas idades. Isso acontece porquê? Acontece porque, à medida que a criança vai crescendo, ela vai tendo uma maior percepção do real (e isso mostra apenas que o cérebro dela está a crescer e que ela vai tomando conta do mundo que a envolve - e isso, até a nós, pode dar um frio na barriga!).

E também é verdade que o medo da medo.

Então o que fazer quando a criança tem medo do escuro?


1. Respira fundo
O medo é algo normal e toda a gente tem medo. Quando somos pequenos temos medo do escuro, do lobo mau. Quando somos grandes podemos continuar a ter medo do escuro e também podemos ter medo da mudança, da perda. E, para além do medo, também resistimos a tudo o que é diferente e a tudo o que é novo. Porquê? Pois… justamente porque temos medo.

Em relação aos medos dos miúdos, o importante é que possamos ajudá-los a lidar com esses medos maus, estando seguros que ter medo… é normal! É a nossa segurança e a nossa serenidade que os vai ajudar.




2. Empatia
Deveríamos todos trabalhar esta extraordinária competência que é a empatia. Os ingleses dizem que é a nossa capacidade em nos colocarmos no lugar do outro. E eu acrescento que, com respeito e sem necessidade de constantemente salvarmos os nossos filhos, a empatia é quem vai ajudar a criança a lidar, da sua forma, com os medos. Não desvalorizes o medo que ela sente porque, como já te disse, ter medo… dá medo. Na verdade quanto mais negares o que ela diz que vê e sente, mais ela vai procurar provar que aquilo que vê e sente é verdade.




3. Dá-lhe poder

Naqueles casos em que a criança acredita que há monstros no quarto (isto é comum aos 4 e aos 6 anos), então dá-lhe um spray mata monstros ou coloquem uma luz de presença ou um difusor efeito espanta monstros. É o facto de ser ela a fazer isso que lhe dará mais poder e controlo da situação. Ela precisa de ter a certeza que está a lidar com isso



4. Dá-lhe segurança
Por vezes os medos não são os monstros. São receios, medos de perda. Situações que, ao contrário daqueles monstros horríveis que vivem debaixo da cama e que podem ser materializáveis, estes são medos do coração.

É muito frequente constatar que por vezes a criança não consegue adormecer sozinha porque, diz ela, tem medo. E, muito frequentemente, a forma como ela se permite adormecer sozinha é trabalhada durante o dia - com momentos exclusivos em que nos dedicamos aos nossos filhos. E só a eles.

Sabes, quando estamos seguros do amor do outro, então temos segurança emocional para nos permitirmos relaxar e adormecer, com fé no amanhã e com a segurança do amor e dos afectos. Trabalha portanto a questão do vínculo [procura neste blogue pelas palavras vínculo, relação, afetos] ideias para isso. E depois, e à noite, fica na primeira ou na segunda noite ao lado do teu filho até ele adormecer e diz-lhe que, quando o sentires a dormir, vais sair. Finalmente, assegura-lhe que estarás sempre por perto para garantir que tudo está bem - e por isso não precisas de ficar coladinha a ele - mas que vais ficar mega colada no dia a seguir, quando forem brincar juntos.




5. Tira-lhe os ecrãs

Por todos os motivos - porque provoca excitação, porque frequentemente uma criança pequena não sabe bem distinguir o real do imaginário e confunde as diferentes dimensões. Trabalha a relação, brinquem, joguem juntos. Desliga os ecrãs (tv, tablets, telemóveis)

6. Deixa uma luz de presença se isso garantir segurança à criança.

Conheço adultos que também gostam e precisam desse ponto de luz. Conheço adultos que não suportam luz. E no caso de ser um casal em que um quer luz e o outro não? Deve ser interessante descobrir o que acontece!


7. Shiu, dorme - estou aqui e está tudo bem!

Se a tua filha acordar a meio da noite, não precisas de ir sempre a correr. Diz-lhe, do teu quarto, e com uma voz doce e firme ‘Shiu, dorme - estou aqui e está tudo bem!’

Se tu sabes que está tudo bem, e se ela sentir a tua segurança, então é bem possível que ela se vire para o outro lado e adormeça. Afinal de contas, as mães é que sabem! (e os pais também!)


8. Ensina-lhe que ela não tem de adormecer logo
O teu filho pode perfeitamente pegar num livro ou ficar a criar histórias na cabeça ou ficar a olhar para as estrelas que estão coladas no tecto - por vezes os miúdos acreditam que têm de dormir logo e essa ansiedade pode criar barreiras ao adormecer. Explica-lhes as opções que têm.


9. Dormir contigo?
Eu sou a favor que a criança durma na sua cama e no seu quarto. Percebo que no dia a seguir todos temos de trabalhar e que uma vez não são vezes. E que há alturas que é bom dormirmos todos abraçados. É bom, claro que é! Mas, de uma forma geral, mantenho a minha opinião que se a criança tem o seu quarto e a sua cama é lá que é o seu lugar. Caso ela continue a acordar a meio da noite, com necessidade de ir para o pé dos pais ou com necessidade que eles venham ter com ela, vale a pena apostar na relação durante o dia. É inacreditável a diferença que isso faz na qualidade das noites. Não sei se sabes, mas a maior parte dos problemas de sono tratam-se durante o dia.

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