Crianças Zombies

6.8.15


Digital: antigamente era a salvação.

Hoje? Hoje parece ser, em alguns casos, o bicho papão!

Mas é verdade: o digital facilita-nos imenso a vida. É óptimo reenviar este texto por email através do meu telemóvel, ver que farmácias estão abertas agora ou enviar uma foto dos meus filhos à família que está longe.

Como em tudo, o equilíbrio deveria ser a regra na utilização daquilo que causa dependência porque sim, a Internet, os jogos e tudo o que é digital causa dependência. Não são apenas os conteúdos mas antes a quantidade de estímulos que um texto ou uma página de facebook provocam no nosso cérebro. São muito maiores que ler um livro ou estar a conversar com alguém, de carne e osso, em frente a nós. O zombie na expressão digital zombies é por isso um paradoxo porque andamos zombies nas relações humanas e não na nossa interacção com todos os devices a que temos acesso.

Mas o equilíbrio é mais difícil de gerir. É irónico dizermos aos miúdos que não devem passar tanto tempo em frente ao tablet ou à TV para depois lhes oferecermos o mesmo objecto ao jantar, num restaurante. É verdade que todos temos o direito ao descanso e à distração. E sim senhor, sabe bem ir jantar fora em família, não ter de cozinhar nem arrumar a seguir mas não podemos pedir que os miúdos não sejam dependentes da tecnologia quando a colocamos à frente sempre que nos dá jeito. Se é para aproveitar a saída, descansar das lides domésticas, então aproveitemos o serão em família… e não cada um com o seu device nas mãos.

Desvinculamo-nos do papel de pais quando, continuamente, deixamos que a tecnologia passe a entreter os nossos filhos. A cada passo afastamo-nos mais deles, e eles de nós. A cada momento perdemos situações mágicas porque estamos a olhar para baixo, para um mundo virtual. Andamos cansados, com menos paciência e já não sabemos nem conseguimos manter uma relação com significado e valor. E então passamos-lhes o tablet porque já não conseguimos investir naquilo que temos de mais precioso na vida – essa relação parental que acabei de mencionar. E, de repente, vemo-nos numa bola de neve. Estou mesmo muito convencida de que estamos a deixar de saber estar uns com os outros. É absolutamente assustadora a facilidade com que pegamos nos telemóveis e nos ipads para nos distrairmos quando sentimos que o assunto não está animado…. lá está, directa ou indirectamente o virtual é mais estimulante.

O perigo da Internet está no facto de ela estar em todo o lado. Não é porque eu corto o acesso em casa que os meus filhos não vão ter acesso grátis num qualquer café, na escola ou em casa dos amigos. O bicho papão passa a estar, de repente, em todo o lado, com utilizadores diferentes, anónimos e sem rosto, sem voz …

Mas, se em nossas casas ainda temos o poder regulador em relação às crianças… quem é que nos regula o não acesso aos emails do trabalho durante o fim-de-semana, à noite ou mesmo durante as férias? Quem é que acaba com a defesa do busy? Sabemos que começamos a chegar a um momento de viragem quando países como a França já pensam nestes temas ao nível do Estado, depois de uma vaga de suicídios na France Telecom.

Sabemos que estamos a chegar a um limite quando percebemos que há clínicas para desintoxicação digital, que há pessoas que já cortaram o acesso em casa porque querem ter mais e melhor tempo em família. Admito que tenho dias em que faço um esforço para não pegar no telemóvel e ver o que se está a passar nas redes enquanto estou em família. É um sinal dos tempos, talvez, mas não quer dizer que tenha de o aceitar.

E se o cenário é assustador [porque o é!] a única forma que temos de resgatar as nossas crianças [e a nós] é através da relação que temos com elas. O vínculo, que é a qualidade da relação que tenho com os meus filhos e eles comigo é que pode vir a salvar este enredo. Quando pais e filhos se mantêm ligados através das experiências reais que vivem e que enchem de valor a vida que têm, então estas crianças serão menos susceptíveis de serem “levadas” por caminhos desviantes. Quando mantemos uma comunicação aberta, onde todos os envolvidos são aceites por aquilo que são, pela sua natureza única, então temos mais vontade de nos mantermos por perto, temos mais vontade de partilhar os acontecimentos das nossas vidas e de pedir opiniões. A isto chama-se vínculo e a isto chama-se capacidade em comunicar.
Seria uma tontice proibir o acesso ao digital porque ele é bom. É bom fazer um curso à distância sem sair do lugar, fazer as compras online, é bom comentar as fotos dos amigos, ler os jornais digitais, manter um blogue, começar uma corrida no Porto com uma amiga que está em Lisboa ou receber uma notificação em como a nossa encomenda já foi entregue no destino.

E também é bom ler livros de papel, jogar jogos com dados, pintar com pincéis e numa tela, opinar e discutir de forma acesa sobre um tema, manter relações verdadeiras com pessoas que são imperfeitas, com corpos imperfeitos, com defeitos na personalidade. A inteligência emocional pode ser teoricamente aprendida com cursos no youtube mas não é aplicável a não ser num Tête-à tête.

Estou mesmo convencida de que é quando criamos experiências boas com os nossos filhos, quando pomos a nossa vida em comum, quando “mandamos bocas”, fazemos likes verdadeiros ou andamos à luta no tapete da sala que estamos a pôr em equilíbrio esta equação.

Originalmente publicado na Maria Capaz

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