Crianças de Betão

17.8.15


Falamos, fazemos, consumimos as horas e a saúde nessas horas para fazermos um trabalho miserável. Sim, o termo é miserável.

Andamos a apregoar que os miúdos não têm valores, não sabem dar valor a nada. Já não brincam nas ruas, já não brincam em lado nenhum.

Na minha terra havia escolas antigas. Das bonitas. Das que tinham chão de madeira, janelas aos quadradinhos e quadros de ardósia e, por cima deles, quadros novos, modernos. Há uns anos, compraram o terreno ao lado e decidiram ampliar a escola. Mega obra, toda revestida a madeira por fora, toda modernaça. E quando se fazem coisas novas, vamos sempre na expectativa de encontrar a diferença, de dizer ‘ah, finalmente andam a fazer as coisas direitas!’ Mas não, não me devia ter iludido. É uma escola nova, toda modernaça, pois é. Em betão. Cinzenta. Fria. Com madeira a decorar o exterior e madeira essa que não é vista do interior. Com um chão onde não dá vontade de cair porque esfolar os joelhos ali vai doer mesmo. É uma escola nova, toda modernaça, sem uma pontinha de relva, sem flores, sem árvores. Porque custa dinheiro manter a relva, a horta, a árvore e a flor.

Queremos que os miúdos se libertem, que corram, que gostem da natureza (para a respeitarem).

Lembro-me de uma escola onde a minha filha andou e foi muito feliz. Era uma escola pequenina. Tinha um canto com uma horta e a horta era tratada pela directora da escola, pela sua irmã e também por todas as restantes colaboradores. Era uma horta pequenina, com uma tartaruga que costumava ter a cabeça enfiada dentro da casa e se escondia dentro de uma bacia enorme de água. Quando os espinafres eram muitos, as mães recebiam um saco deles, quando iam buscar os filhos. Havia ‘vagar’, havia tempo para se ensinar a pôr as mãos na terra e cair ali não custava tanto. Também nunca ‘caíram os parentes’ à direcção da escola que fez a horta porque sim. Não precisava de muito dinheiro para a manter – tudo dependia da boa vontade e de um bom par de mãos ou dois para a tratar.

Não são as crianças que não sabem brincar – somos nós que não lhes criamos o espaço apropriado para tal.

Os miúdos não sabem brincar porque passam o dia dentro de betão e de betão se tornam. E quando isso acontecer, quem é que nos vai salvar? Essas crianças de betão?

Gostava mesmo muito que agora que o novo ano está a ser planeado, que professores, pais e direcção das escolas (sim, a direcção tem de abrir o caminho) pudesse criar um cantinho que fosse mantido não por obrigação mas por gosto. De certeza que há pais que gostam e percebem da arte e têm gosto e engenho para criarem uma horta bonita e que seja estimada e motivo de orgulho de todos.

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