Estamos a criar tótós? Agora em word!

20.7.15
Houve alguns leitores que me disseram que ler o PDF no telemóvel não era fácil. Admito que não e para que não te falte mesmo nada, fiz copy past ao PDF e aqui tens o texto só para ti!

"Lembro-me de brincar no terraço do meu prédio com os 

meus vizinhos e de sentir que a imaginação era o limite... 

Lembro-me de ouvir a minha mãe chamar-me para jantar 

– mais ou menos à mesma hora das outras mães – e de 

sentir que não queria ir para casa, porque 

estávamos tão bem naquele nosso mundo 

de fantasia, onde podíamos explorar as 

inúmeras possibilidades que oferecia aquele 

terraço... Lembro-me de sentir o vento a bater-me na cara 

e de pensar que se fosse para casa, teria de puxar muito mais 

pela imaginação, porque na televisão os desenhos animados 

passavam apenas ao domingo de manhã e não havia Play-
stations nem Nintendos (esta surgiu um pouco mais tarde 

e em formato bastante arcaico!). 





E também me lembro de saber que, se fosse para casa, 

brincaria sozinha ou com a minha irmã, e como ela é um ano 

e meio mais nova, às vezes (confesso!) não tinha grande 

paciência... Mas, na verdade, sentia-me bem se brincasse 

sozinha, tinha imaginação suficiente para isso. Talvez 

precisamente porque a oferta de diversão fosse bastante 

mais reduzida, a autonomia das crianças da minha idade 

era bem diferente da que têm as crianças de hoje. O que é 

que se passa com elas? Estaremos a criar totós?

Mudam-se os tempos, 

mantêm-se as vontades

Vivemos a era da evolução tecnológica, da comunicação de 

massas e da velocidade, a era em que sentimos que o tempo 

escasseia, deixando-nos pouco espaço para viver em vez de 

sobreviver. Mas nesta nossa era, os nossos filhos são iguais

 às crianças que fomos um dia. Tal como ontem, também 

as crianças de hoje querem brincar sem limites, querem viver 

na totalidade essa fase que não volta, querem desenrascar-se 

de igual forma, testando a sua criatividade, a sua imaginação 

e os seus limites. O formato de vida muda, mas mantêm-se 

as vontades, como explica Magda Gomes Dias, coach em 

Aconselhamento Parental e autora do livro ‘Crianças Felizes’: 

“Eu sou da geração dos VHS e das cassetes, e os meus pais 

ficavam impressionados com a minha capacidade de gravação 

e com a rapidez com que fazia as coisas... Quantas vezes 

me chamaram para ajudar a ligar um gravador! Ninguém 

me ensinou, eu ia por tentativa e erro. Com os miúdos hoje 

em dia é igual, só não são VHS nem cassetes, antes Playsta-
tions e os iPhones”, diz. A especialista deixa, no entanto, um 

alerta: é necessário passarmos mais tempo com os nossos 

filhos para lhes darmos bases de autonomia iguais às que 

tínhamos quando éramos crianças. “É necessário fazermos as coisas na dose certa. Com uma boa gestão, é possível 

criarmos crianças autónomas e felizes. Eu considero, apoiada 

nos estudos que leio mas também no bom senso, que é muito 

melhor para o cérebro de uma criança se ela desenhar mais 

com canetas e se passar mais tempo longe dos ecrãs do 

que em frente a eles... E ao jantar, num restaurante, se a ideia 

é descansar e não estar a cozinhar, podendo aproveitar o 

momento em família, então o que é que um iPad está a fazer 

em cima da mesa? Não é uma crítica, é simplesmente uma 

ideia para pensarmos um pouco nisto...”

Protegemos demasiado 

os nossos filhos?

Vivemos vidas aceleradas e sentimos, muitas vezes, que não 

estamos tão presentes na vida dos nossos filhos como 

gostaríamos. Tentamos compensar esse vazio, protegendo-os 

quando estamos presentes e cumprindo esse que é um dos 

principais papéis da paternidade. Estaremos a protegê-los 

excessivamente? Para a especialista, o protecionismo 

excessivo é resultado das características das sociedades 

contemporâneas e dos tempos que se vivem, como refere: 

“A vida está diferente e, por isso, nós estamos diferentes. 

Acho que temos, por vezes, alguma dificuldade em ajustar o 

equilíbrio da proteção. Mas a verdade, também, é que há 

tantas coisas estranhas que acontecem... Há demasiada 

informação que nos chega e, ainda que as informações más 

sejam pontuais, é um facto que uma informação má num dia 

consegue eliminar as informações boas que aconteceram, 

colocando-nos num estado de alerta gigantesco. É inevitável, 

somos assim enquanto espécie.” A liberdade dos nossos 

filhos é a variante que sai condicionada de toda esta equação: 

“Com os raptos que ouvimos nas notícias, é inevitável uma 

pessoa estar sempre a vigiá-los... É impossível 

não entrar em pânico, não ter medo de deixar 

os miúdos fora de vista... Ninguém anda 

sossegado e é um esforço enorme este que

se faz em deixá-los crescer livres. É necessário 

fazê-lo, mas é difícil”, acrescenta.

Neste contexto, o que é que podemos fazer 

para criarmos crianças felizes e autónomas? 

Como é que as nossas crianças poderão vir a 

ser adultos psicologicamente saudáveis e sem 

receios? Magda Gomes Dias acredita que tudo 

passa pela educação em casa e pelas pequenas 

tarefas do dia a dia. “Não insistir para que eles 

ponham a mesa, preparar-lhes sempre a 

mochila, assegurarmos que o lanche vai 

com eles, darmos-lhes as respostas dos TPC... 

não pode ser! É importante não deixarmos 

os nossos filhos desistirem de uma atividade 

à primeira... Eles queriam ir, foram inscritos 

e depois já não querem porque dizem que não 

gostam? E já sabem nadar? E já sabem tocar 

três acordes seguidos que resultem numa 

melodia? Não? Então ainda não saborearam 

o prazer do esforço e de ver (ou ouvir) algo 

acontecer... E é uma pena! Porque nessa al-
tura, quando o fizerem, vão saber que o esforço 

compensa, que a disciplina e a concentração 

são importantes, mesmo que a motivação tire 

férias... Vão saborear o prazer que é nadar um 

bocadinho, mergulhar sem medo ou ouvir 

uma parte de uma música que é tocada por 

eles... É isso que consolida a autoestima de 

para uma criança ser feliz?

uma criança”, diz. São estes ensinamentos e estes valores 

que devem constar na base de crescimento de uma criança 

para que se torne um adulto equilibrado e feliz.

O que é que é preciso 

Fornecer-lhes as bases de sobrevivência para que possam 

viver livres e autónomos neste que é um mundo, por vezes, 

selvagem é uma tarefa fundamental para que os seus filhos 

sejam crianças felizes. A melhor forma de o conseguir é, se-
gundo a especialista, estabelecer com eles um bom 

vínculo, envolvê-los nas tarefas e impor-lhes regras e limites, 

como refere: “São necessários três ingredientes para que uma 

criança seja feliz: vínculo, que é algo relacionado com a qua-
lidade da relação que tenho com os meus filhos e eles comigo. 

E esta qualidade do vínculo vai ter, depois, consequências 

a nível da autoestima e da questão da autoridade e da 

obediência. Depois a outra: envolver a criança e fazer tarefas 

com ela e não para ela. Ir com ela ao supermercado, ensiná-la 

a pôr a mesa, ensaiar com ela uma canção, deixá-la fazer 

as coisas à sua maneira... Isso fará com que dê o devido valor 

à vida. Por fim, impor regras e limites: uma criança que cresce 

sem regras nem limites é uma criança angustiada porque 

sente que o pai e a mãe não conseguem protegê-la, precisa-
mente porque não conseguem impor limites. E fazer isso é 

tão simples como estabelecer horários para dormir, não deixar 

que, com 3 anos, usem a faca de cortar o pão, não deixar que 

saltem em cima dos sofás, aos 2, ou educá-las a dizer ‘bom 

dia’ ou ‘boa tarde’ quando chegam ao pé de alguém. E tam-
bém: arrumarem o quarto, ajudarem em casa nas tarefas 

apropriadas para as suas idades... É simples e mesmo assim 

pode tornar-se tão complexo!” Desta forma, os seus filhos 

crescerão saudáveis, como acrescenta: “Nós esta-
mos a formar pessoas e as pessoas formam-se 


com base nos valores. Quer que o seu filho 

faça desporto e que goste da Natureza? Leve-o 

a passear de bicicleta para o campo. Quer que 

ajude os outros? Leve-o a fazer voluntariado. 

Quer ajudá-lo a superar-se? Esteja lá, ao pé 

dele, orientando-o.” De todas as regras, a 

especialista escolhe o vínculo como a mais 

importante. “O vínculo é o ponto mais impor-
tante – mimo a mais, lembrem-se, não existe! 

O que existe é, antes, falta de limites. Quando 

temos uma boa relação com as crianças, elas 

cooperam, são gentis e generosas, e isso ajuda-

-nos a desfrutar da nossa relação parental.” 

Resumindo, ajudar a criança a ser feliz é 

ensiná-la a ser autónoma. “Quando ensinamos 

uma criança a ser autónoma, estamos a 

ajudá-la a ser feliz, a pensar estrategicamente, 

a responsabilizar-se e a tomar conta de si. 

E são formas simples como: lavar os dentes 

e a cara sozinha, ir pagar o gelado que comprou, 

dizer ‘bom dia’ e ‘boa tarde’ [consciência e 

autonomia social], chegar a casa, lanchar,

ver um pouco de televisão e depois apagá-la 

para ir fazer o TPC, etc.” 

A organização, as regras e a imposição de 

limites são conceitos básicos na convivência 

em sociedade. É necessário partirmos deles 

para ensinarmos autonomia aos nossos filhos. 

É necessário ensinarmos autonomia aos 


nossos filhos para crescerem adultos felizes. "

1 comentário:

Obrigada por leres e por comentares!
Todos os comentários são bem-vindos excepto os que 'berram alto'...Esses são, naturalmente, eliminados!

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