"Pai dá lição a filho por saber que este maltratou colega" e porque razão isto não ensina quase nada!

7.5.15


De há uns tempos para cá tenho visto imensas formas de ensinar lições aos miúdos, na internet.

Lembro-me de uma mãe que, ao saber que o filho tinha colocado fotografias íntimas da namorada, na web, filmou-se a dar chineladas ao filho e a fazer com que ele pedisse desculpas em público. Depois, colocou tudo no facebook e no youtube e os comentários andavam todos próximos do 'grande mãe, isto sim é educar!'.


Depois também li esta notícia - o pai que, ao descobrir que o filho mal tratava os colegas na escola, decide mostrar-lhe que isso não se faz e então cria cartazes humilhantes e leva-o a fazer uma série de trabalhos forçados, num regime quase militar. Tudo é publicado na internet e, novamente aplaudido.


Talvez seja possível que as crianças/adolescentes tenham aprendido que é melhor terem cuidado com o que fazem para não serem novamente humilhadas. E é possível que a situação não se volte a repetir. O objectivo talvez seja cumprido mas o que não é cumprido aqui é como ensinar a lição. E, muito sinceramente, tenho dúvidas se o objectivo será mesmo cumprido - talvez da próxima vez a criança faça tudo para não ser apanhada ou novamente humilhada mas não garantimos que ela não venha a fazer o mesmo...


O rapaz que coloca imagens íntimas da namorada na internet é humilhado e agredido pela mãe.

O rapaz que aterroriza os outros na escola é também humilhado pelo pai, com os cartazes e as fotos colocadas na internet.

É uma espécie de vingança que, embora impulsiva e quase descontrolada, é, simultaneamente maquiavélica.


Os pais, por sua vez, ao colocarem estas imagens na internet garantem que a responsabilidade pela má educação dos filhos e pelos desvios não é deles porque eles até usam aquele tipo de estratégias 'educativas'. Os pais, receosos que o seu papel de educadores possa ser posto em causa, tratam rapidamente de 'repor o equilíbrio'.


O que eu duvido é que estes miúdos tenham realmente aprendido a lição como deve de ser e que se tenham responsabilizado pelas suas acções e tenham crescido.

Também é verdade que o que é justo para mim e equilibrado pode não ser para outro pai, sobretudo no calor do momento. Mas pergunto-me se isto não vai reforçar as situações que certamente todos quererão ver esquecidas - colocá-las em público será a resposta?


Ao miúdo que colocou as imagens na Internet talvez fosse vantajoso tirar-lhe todos os privilégios que ele tem nesse domínio - TV, computador, telemóvel, etc. Como era menor, terminar com as contas nas redes sociais - afinal a única coisa que ele provou é que ainda não é maduro para ter acesso a elas.

Fora do contacto com os amigos, talvez ele aprendesse a dar valor e a trabalhar as relações de outras formas e enquanto isso não acontecesse, ele não conquistaria o direito de ter acesso a elas.


À criança que agredia os colegas, colocá-la a fazer algum trabalho com a comunidade, apoiar idosos ou centros sociais que necessitem de pessoas generosas, firmes e honestas - tudo o que a criança precisaria de trabalhar em termos de competências sociais e perceber o quanto é bom ser-se assim. Um trabalho que durasse um ano ou mais. E acompanharia a criança, para perceber a fonte daquela agressividade.


Aos pais pediria poder parental, foco e alguma inteligência emocional, com a capacidade de ver a médio e a longo prazo - que eu sei que é difícil, sobretudo quando sentimos que o nosso papel é posto em causa. Trabalhar à retaguardar, treinar e acompanhar os filhos não evita tudo mas ajuda, e muito. E sim, dá muito trabalhinho mas compensa, é justo e seguramente é neste papel que todos nos queremos ver.

Este tipo de 'educação' que últimamente se tem visto são formas rápidas de remediar as situações mas não as corrigem, não lançam bases sólidas para o futuro. Mostram antes que pais e filhos têm a mesma forma de gerir as situações e que 'olho por olho, e a humanidade vai terminar toda cega'.

Vale a pena reler esta parte da entrevista que dei ao Observador. Vale a pena pensar nestes assuntos antes que eles possam acontecer para reflectirmos sobre como os podemos prevenir, por exemplo.


Qual é o conceito de castigo dentro da Parentalidade Positiva?
A Parentalidade Positiva sabe que o castigo e a palmada funcionam no curto prazo. Nós temos falta de paciência, não conhecemos outras estratégias. A ideia que dá é que se eu estiver constantemente a castigar ou a dar palmadas, tenho de andar sempre atrás do miúdo. O meu objetivo, enquanto mãe, é ter filhos independentes e autónomos, que saibam pensar e tomar as melhores decisões. Dá trabalho. A Parentalidade Positiva dá muito trabalho. A palmada e o castigo são a lei do menor esforço.

O castigo é a melhor forma de desresponsabilizar uma criança. Eu desresponsabilizo a criança, decido a forma como vou punir e decido como é que ela vai sofrer. Aquilo que eu quero, enquanto mãe, é que ela tome a melhor decisão, que seja responsável. O castigo é um jogo de poder dos pais e não tem nada que ver com a situação.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Obrigada por leres e por comentares!
Todos os comentários são bem-vindos excepto os que 'berram alto'...Esses são, naturalmente, eliminados!

linkwithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Share