TRUE COLORS | COMO LIDO COM O MAU FEITIO DOS MEUS

27.8.14
Neste post falei-te sobre o meu mau feitio e também te disse que te contaria como lido com os episódios de mau feitio dos meus.

Mas antes de tudo preciso de dizer-te o que é que eu entendo por mau feitio. Mau feitio são aquelas situações em que a outra pessoa amua, responde torto, cruza os braços, resmunga. É brusca.

Como eu já tenho muitos anos de mau feitio sei bem que mau feitio não tem a ver com má educação embora possa parece-lo porque aquela cara de poucos amigos, os braços fechados e as respostas pouco simpáticas em tudo se assemelham. Mas não, mau feitio não tem mesmo nada a ver com má educação, garanto-te.

Quando era mais nova era comum resmungar. Mandar vir. Diziam que tinha mau feitio e eu acreditei, durante muitos mas mesmo muitos anos, que assim era. Mais, acreditei durante muito tempo que se assim era, e que se as pessoas com maior influência o diziam, é porque tinham razão. Afinal eram mais velhas que eu e sabiam do que estariam a falar.
E eu nada podia fazer para mudar embora me dissessem para ‘pôr melhor cara’. E ‘pôr boa cara’ era mesmo difícil de fazer – este pedido fazia-me sentir que aquilo que eu estava a tentar dizer e aquilo que eu estava a sentir não tinha valor para o outro. Se de repente eu podia mudar de estado, então isso significava que tudo o que eu estava a mostrar não era verdadeiro.
Queres arreliar uma pessoa com mau feitio? Pede-lhe que ponha boa cara! 

Quanto mais insistiam em dizer-me que tinha mau feitio, quanto mais refilavam comigo mais eu continuava. Hoje percebo porquê. Porque tinha sempre a sensação de estar a falar para uma parede. Juro! E se eu levantava a voz era porque justamente não me sentia ouvida. Parecia que tinha de repetir tudo de novo mas ainda mais alto
– o outro continuava a não ouvir o que eu dizia. E então eu insistia. E se punha cara feia era só e apenas porque, naqueles momentos, o adulto que ali estava não se agachava e não prestava atenção ao que eu estava a dizer. Não valia a pena. Ora rebolava os olhos, ora fazia cara de frete. E isto prova que comportamento gera comportamento – se eu não sou importante para ti, se tu não páras para me escutar e para perceberes quais são as minhas ‘true colors’, então eu pago-te na mesma moeda. Faço cara de frete! 

Mas ao pagar na mesma moeda não quer dizer que as coisas ficassem por ali porque uma discussão que envolva momentos de ‘mau feitio’ é uma discussão que tem muitas emoções pelo meio. Pessoas com este tipo de mau feitio são pessoas que têm as emoções, pelo menos naquele momento, à flor da pele. E quando são pequeninas [e até grandes] podem não saber geri-las. E então o que é que se faz?

Faz-se como na linha do comboio: Para, olha e escuta.

Porque uma pessoa que está a ter um episódio de mau feitio só precisa que a vejam naquele momento e procurem compreender o que é que ela tem, o que é que ela quer quando não está a conseguir dizer, da melhor forma, o que deseja. E mesmo que tu possas não estar de acordo ou não possas ajudar, só o simples facto de parares, olhares e escutares fará toda a diferença.

Um episódio de mau feitio pede a tua melhor empatia. E empatia é saberes colocar-te no lugar do outro sem que o outro te precise de dizer o que é que tem e como se sente. E para o fazeres precisas de ter uma boa dose de auto-conhecimento [é um cliché mas é a verdade pura e dura].

É comum ouvir ‘quem te fez mal? Porque estás a chorar? Nunca estás contente’ e, mesmo com tantas perguntas e mesmo com tantas opinações, é ainda mais comum as pessoas não ouvirem, de facto, as respostas e muito menos é vê-las baixarem-se, pegarem no rosto ou na mão e dar um abraço e dizer ‘hmmm… anda cá, vamos sossegar e já me dizes o que queres dizer.’

É isso que faço com os meus. Eu sei muito bem o que é ter mau feitio mas sei também que aquilo que sossega o coração de uma pessoa com mau feitio é termos alguém que se importe connosco, que se baixe, que deixe tudo e que, mesmo quando continuamos a responder mal, sabe ver mais longe, é mais forte e sabe que aquela frase torta não foi para ele mas é sim o reflexo de uma imaturidade emocional. E porque eu sei disto, foco-me no que ela me está a tentar dizer, com muito amor, muita compaixão e a melhor das boas vontades.
A minha filha, tal como os teus, só precisam de uma ajuda.  Não, não vão ficar dependentes de nós para o fazer ao longo da vida. Vão, pelo contrário, aprender a escutar a sua voz interior, vão aprender a gerir as emoções e a falar a sua verdade

O mau feitio quer dizer que aquela criança não está a saber lidar com todas as emoções que estão ali dentro. É só isto. Agora que sabes isto tudo, da próxima vez lembra-te da mensagem da linha do comboio: Pára, olha e escuta !

3 comentários:

  1. Adorei Magda... obrigada pela partilha! Ao ler a forma como se descreve quando criança faz-me pensar na minha filha de 6 anos... Terei sem dúvida que ser uma mãe que para mais vezes, olha mais vezes, escuta mais vezes.

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  2. Obrigada, a sério... Porque, acho que pela primeira vez, consegui encontrar alguém que passou pelas mesmas situações que eu quando era mais nova (e já mais velha também), e que conseguiu passar para palavras aquilo que eu nunca consegui explicar... Porque é tão difícil sentirmo-nos incompreendidos, e é isso... apesar de falarmos mal e de quase gritarmos, às vezes só queremos é que nos ouçam. Precisamos de tempo. E agora consigo ver o mesmo a acontecer com o meu filho de 7 anos. Que de vez em quando não se sente ouvido e fala cada vez mais alto. Nessas alturas, por mais complicada que seja a situação, tento não falar alto, parar e olhar para ele, atentamente. Abraçá-lo, quando ele me deixa e ficar, simplesmente, ali para o que for preciso. Grata novamente pelo testemunho!

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  3. Muito obrigado, Magda, por todos os textos mas particularmente por este, quero guardar estas palavras e pô-las em prática desde já com o meu filho de 2 anos, porque nunca é cedo demais para criar as rotinas e o vinculo que lhe dão segurança.

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Obrigada por leres e por comentares!
Todos os comentários são bem-vindos excepto os que 'berram alto'...Esses são, naturalmente, eliminados!

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