As modernices da Parentalidade [a parentalidade positiva, a cutchi cutchi e as outras ]

2.6.14





Felizmente a coisa é virtual. Dá a impressão que anda tudo à turra e à massa mas, felizmente, é tudo na blogosfera e parece não passar daí.


O João Miguel Tavares publicou mais um dos seus textos - daqueles que se tornam polémicos . A coisa incendiou mesmo quando ele cita o comentário que o Dr. Mário Cordeiro deixa no seu blogue, garantindo assim [consciente ou inconscientemente] que o seu texto de Domingo, no Público fosse lido e partilhado vezes sem conta. Não sei se isso terá acontecido ou não, mas talvez esta última semana tenha aumentado ainda mais o fosso entre os que advogam a parentalidade cutchi cutchi e os da turma dos mais autoritários.


Eu fui lendo pontualmente o que se ia comentando, deliciada com o esticar da corda do João Miguel e a forma como ele consegue provocar os leitores e obter respostas… animadas.


E não estava a pensar comentar nada do que se foi escrevendo mas hoje o meu primo Miguel enviou-me um teaser. E depois a Lénia chamou de Parentalidade Positiva à Parentalidade que o Miguel chama Cutchi cutchi. E eu não gosto cá de provocações :D e decidi que uma vez que trabalho nesta área e que me dedico tanto a ela, que estava também na hora de opinar. Vamos por pontos:


1. A Parentalidade Positiva não é Parentalidade Cutchi Cutchi. Parentalidade Positiva [nome pomposo, sim senhora!] é uma filosofia que:


a. Tem por base o respeito mútuo entre pais e filhos e que por isso não vê necessidade de se fazer uso nem abuso das palmadas nem dos castigos.


b. Pais e filhos não são iguais. São pessoas mas não têm direitos nem deveres iguais.


c. Quem orienta é o adulto e não é a criança. Isso não quer dizer que não se possa negociar mas negoceia-se no que é negociável. De resto… mum’s the boss!






2. Não confundir Educação e Parentalidade Positiva [EPP] com as modernices de não se colocarem limites. Na EPP HÁ LIMITES CLAROS, CONCRETOS e JUSTOS.


3. Não faz uso de castigos nem de palmadas por vários motivos. O do respeito pela criança e também por aquilo que o próprio adulto deseja para si.


4. A EPP sabe e não nega que os castigos e as palmadas funcionam. No curto prazo. Mas acredita que os pais não querem ter sempre de usar estas estratégias e por isso existem outro tipo de abordagens que têm em conta não só a natureza da criança como a do pai. E da situação. Para mais sobre isto, por favor lê o blogue ou inscreve-te num dos muitos workshops.


5. O mimo não estraga nem nunca estragou. O que estraga, meus senhores, é a falta de limites. Ou o ‘hoje faço assim e amanhã assado.’






Sobre o ‘desligar-se a televisão quando a criança tem uma questão’… a sério? Quero acreditar que este exemplo foi um bocadinho infeliz. Tenho o ‘besame mucho’ e embora haja muitas coisas interessantes, também há muitas das quais eu me distancio. Nomeadamente sobre a questão do co-sleeping [sobre a qual escrevi um longo texto] e também a questão de tratarmos as crianças tal como tratamos outros adultos. Eu tenho uma opinião diferente da do Dr. Gonzalez. Crianças e pais não são iguais e não podem nem devem ser tratados de forma idêntica porque, lá está, são diferentes. São pessoas em crescimento. Ponto final. Parágrafo!


Também estou em desacordo quando ele diz que não devemos obrigar as crianças a emprestar os brinquedos aos amigos, por exemplo.


O que é que os pais estão aqui a fazer? A pedir que a criança partilhe com outra um objecto que é seu. Ah e tal mas “o que é que farias se o teu marido te dissesse para partilhares um livro teu com uma amiga tua quando ninguém lhe pediu a opinião?” Ora bem, isso ia depender do livro e da amiga, logicamente mas, na verdade, essa NÃO É a questão. Nem podemos comparar o que não é comparável.


Qual é então a questão? O que os pais querem ensinar aos miúdos é a noção de partilha. E isto é mais comum quando se tratam de crianças pequeninas. Mas [e este é um dos princípios da EPP – Parentalidade Pro-Activa = conhecer as fases do crescimento de uma criança] a criança só adquire a noção de partilha como deve de ser a partir dos 4 anos – até lá é comum vê-la brincar lado a lado e raramente frente a frente. O que não deixa também de ser curioso é que lá pelos 5 ou 6 anos, os pais pedem menos aos filhos para partilharem e ‘respeitam’ mais as suas coisas e os seus gostos.


Se devem continuar a incentivar a partilha? Não sei – isso depende dos valores que cada família tem e se isso é importante ou não. Ou se é sempre importante ou não.






Há também quem diga que não devemos exigir aos nossos filhos o ‘se faz favor’ e o ‘obrigado’. Lá está, tudo vai depender dos valores que são importantes para ti. Não estás a forçar o teu filho a nada. Mas se lhe fores lembrando que há regras sociais de convivência e bem-estar, estás a facilitar-lhe o futuro [o futuro próximo]. Sei de quem nunca tenha precisado pedir aos filhos estas coisas [olha que bom!] mas também sei que, quando achamos que não temos de o fazer, nestas coisas que são, aparentemente, coisas banais, depois as ‘palavrinhas de baptismo’ acabam por faltar…






Não podia estar mais de acordo com o João Miguel Tavares – e olha que já estive em desacordo com ele – mas educar cansa, tem pouco de romântico. Ser-se pai e mãe é desejar por vezes chegar a casa e abraçá-los. E, no final do dia, estar desejoso que eles vão dormir para que o nosso sossego comece.









E pleaseeeee! Não confundas EPP com falta de limites. A Educação Permissiva e a Negligente, tal como a Autoritária estão tão longe das bases do trabalho que desenvolvo!

13 comentários:

  1. Em minha defesa digo que não li nem o texto do João Miguel Tavares, nem o artigo que linkas, nem o do pediatra. Li só a crónica da Catarina Beato e foi por conhecê-la bem e lhe admirar a capacidade de não gritar que escrevi o meu post. Vou ler isto tudo com atenção, claro!!

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    1. Lénia, não te estou a meter na guerra da semana passada! ui, deus me livre, como diz o outro :)
      Meti-te pelo meio por causa de uma das frases em que dizes que gostavas de ser da turma dos da PP - fiz copy past no comentário que te deixei no blogue.
      Era só um reparo - acontece confundirem-se os termos e pronto, achei que devia usar o teu mote para pôr tudo em pratos limpos :)
      Beijinhos!

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    2. Eu percebi - e nem me tinha apercebido de que havia uma guerra, imagina só!! ;-)
      Entretanto fui ler o artigo do JMT. E reli este teu post. E tenho uma dúvida gigante: na EPP, como é que se lida com o não cumprimento das regras? Sem palmadas, sem gritos, sem castigos... com o quê, então? (Não é ironia!, quero mesmo perceber!). Suponho que terá que haver uma consequência para quando eles não fazem o que é suposto e não cumprem com o acordado. E é por não saber qual é, segundo a EPP, que acabo por achar que a EPP é uma versão bonitinha e moderna da educação vale tudo menos arrancar olhos, se o menino quer assim, assim seja. Percebes?

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    3. Querida Lénia,

      Sinto a tua curiosidade! Ehehhe!
      Vou dedicar-te mais um post: muito clarinho que é assim que eu sou e gosto de escrever.
      Não esperes soluções milagre mas vais perceber que sim, é possível! E não sou só eu que o digo. Há imensos [e volto a dizer: IMENSOS] pais que fazem desta forma [não porque queiram aplicar a EPP, mas porque são assim] e sabem que É possível.
      Mi aguardemmmmm [di novo :p]

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  2. Haja alguém que não coloque o Gonzalez e a Parentalidade Positiva totalmente no mesmo saco! ;)

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  3. Eu li todos os textos aqui mencionados até porque sigo ambos os blogues e o que me ocorre dizer é o seguinte: gosto de ambos os autores na sua própria forma de analisar as questões da parentalidade porque aquilo que aqui sobressai acima de tudo é o facto de serem pais que estão preocupados e empenhados na formação e edcução dos seus filhos e que consideram a parentalidade tão importante ao ponto de quererem partilhar as suas experiências com os outros pais e este é o grande mérito. Claro que as suas abordagens são diferentes basta o simples facto de um ser pai e a outra mãe. Mas são abordagens que se complementam tal como deve acontecer nos pais, porque acima de tudo o que os filhos precisam são de duas coisas: entenderem que os pais se importam com eles e que estão ali para eles "no matter what". Segundo a figura materna e paterna conferem um equilibrio são e fundamental no desenvolvimento de qualquer criança. E era isto q eu queira dizer, e também agradecer-lhe pelos seus textos e pelo tempo que lhes dedica e que tão bem me fazem ler.

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  4. Excelente resenha, Magda. Esta história de sermos crucificados por ter ideias diferentes é terrível. Um debate polémico mas civilizado é um excelente exercício intelectual. Dizer uma coisa e virem as "virgens ofendidas" caírem-nos em cima, atribuírem-nos intenções (como eu supostamente defender "pancada nas crianças") e outras coisas assim, é encanitante. Não concordo com educações permissivas, mas acho que mimo e ensino/aprendizagem andam a par e fazem parte do mesmo Educar com amor custa, ou amar com educar, mas tem de ser. A ideia de que as crianças podem dominar os pais e ser senhores da casa é entusiasmar as ideias narcísicas que constroem adultos omnipotentes, mesquinhos e ditatoriais nas suas relações. Deus nos livre deles, que os aturamos em todos os lugares do Estado, nas empresas e no dia-a-dia!
    Abraços

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  5. Concordo! Passamos do extremo em que os pais faziam coisas atrozes aos filhos para o outro em que a insegurança tomou conta, sem passar pela casa partida para ganhar alguma coisita... O mais importante deste debate é realmente todos termos a oportunidade de sermos pessoas e pais informados e com a opção de escolha (de preferência, sem termos que ser crucificados pelas nossas decisões, quando damos o nosso melhor). Beijinhos Magda!

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  6. Texto clarinho e bem explicadinho, como sempre. Obrigada Magda.
    Devo dizer que não gosto do termo Parentalidade Cutchi Cutchi (ainda não percebi se ele existe mesmo ou se é apenas uma forma de crítica de uma corrente a outra - se é, acho desrespeitoso). Vou andando a par e passo com as questões da Parentalidade Positiva (que me fazem todo o sentido e que instintivamente, mal ou bem, é o modelo que vou seguindo - acho que me assenta). Mas devo dizer também que respeito (em absoluto) as "modas cutchi cutchi" seja qual for o nome que lhes possamos dar. Acredito na importância do seu aparecimento pois são uma pedra no outro lado de uma balança que andou desequilibrada durante anos e anos de imposição do esquema trabalhista/operário actual. Todos queremos filhos educadinhos, que nos deixem dormir a noite toda, sair cedo de manhã, ter uma vida profissional de sucesso, ao mesmo tempo que lhes oferecemos uma vida válida, estimulante e recheada de carinho, pela qual eles estão gratos. Este quadro não existe, óbvio. Julgo que a PP encontra um meio termo mais eficaz entre as práticas que vão ficando pelo caminho e o cutchi cutchi.
    Devo referir que o mais importante é respeitar as decisões de cada família, dentro das suas particularidades. Por exemplo, pessoalmente, sofri com a minha "incapacidade" de colocar a minha filha a dormir sozinha no primeiro ano de vida. Persisti e insisti em diversas estratégias, até porque eu prefiro ter a minha cama livre de crianças. As estratégias falharam e eu esgotei-me num ano de cansaço, ausência de sono, e até tristeza. Ela ainda gere mal o sono e hora de adormecer.
    Com o segundo filho (que apareceu logo logo de seguida) nem me dei ao luxo de muito esforço. Ao terceiro mês desisti. A tristeza desapareceu e a criança dorme muito melhor. Recuperei a minha cama e a minha sanidade.
    Cada caso é um caso. E as fórmulas mágicas podem causar muito mal estar em alguns pais incapazes de as pôr em prática. E nesse sentido acredito no respeito das filosofias cutchi cutchi pelas necessidades da criança e dos pais, pela individualidade de cada um. Não acredito que as crianças são adultos em miniatura, mas aceito que também nos indicam caminhos válidos desde que estejamos atentos e disponíveis para as escutar.
    Às vezes precisamos mesmo é de relaxar, parar de pensar em ser bons pais, e simplesmente estar.

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  7. Admiro quem publica o que pensa porque como diz o Mário, vêm logo as "virgens ofendidas" porque pensamos e dizemos algo diferente das suas opiniões e crenças.
    No assunto da parentalidade então isso é deveras assustador! O raio da culpa faz com que esses pais (mães e pais) se sintam atacados e ataquem como defesa. Como diz a Inês Vinagre há que aprender a ouvir/ler opiniões diferentes das nossas e ceita-las como tal, sem as tomar como ataques pessoais. É no debate de ideias que crescemos e aprendemos. Parabéns Magda por não ter medo de defender aquilo em que acredita e obrigada por o partilhar com todos nós.

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Obrigada por leres e por comentares!
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