A moda das tabelinhas de comportamento, do sol, das nuvens e dos 'smiles': uma alternativa com resultados muito positivos.

24.3.14
Quem me lê sabe que desconfio das tabelas de comportamento que tipicamente estão nas salas de aulas.

Acredito que podem funcionar ao contrário daquilo que se pretende. A criança faz, numa fase inicial, o que é 'suposto' fazer porque quer ter a cara verde e não a vermelha. Ou o sol em vez da nuvem. Só que, no médio e no longo prazo, as tabelas deixam de ter efeito. O professor ameaça com o vermelho, a criança faz o que lhe é pedido e, dali a pouco é o vira o disco e toca o mesmo.
Em casos mais extremos, há crianças que recebem sempre o vermelho e chegam a casa em pânico por não conseguirem mudar a cor. De alguma forma, é como se o professor não acreditasse mais que aquele menino fosse capaz de mudar. Mais: é como se não valesse a pena investir-se mais nele. Toda a fé naquela criança é deitada fora.

Percebo que haja professores que utilizem este método porque não conhecem outro. Percebo que haja educadores que usem estes quadros porque aprenderam que funcionava e que era uma boa ideia. Mas não sei porque é que continuam a usá-los depois de Dezembro. Ou os quadros têm impacto no primeiro mês (ou no max. no primeiro trimestre) ou então são a prova de que a criança não conseguiu compreender quais são os comportamentos que se esperam dentro de uma sala de aula, mesmo tendo em troca uma cara verde ou uma cara vermelha. Ou antes: são a prova que estes quadros afinal não funcionam assim tão bem quanto isso. E isso não tem nada a ver com a criança.

E agora dizes tu: 'sim, isso é tudo muito bonito mas eu com 25 miúdos barulhentos dentro de uma sala não tenho alternativa". E eu digo-te que tens e por isso convido-te a ler o resto deste post.

A verdade é que há um tipo de quadro que é muito mais interessante e ensina muito mais.
É um tipo de quadro simples, em que as crianças se auto-avaliam e falam sobre os comportamentos que tiveram e que foram bons. E falam nos comportamentos que foram desadequados e que serão melhorados. Falam também no impacto que esses comportamentos - positivos ou negativos - tiveram na turma.

Há aquela actividade do início do dia, com os mais pequenos, que é falar sobre o que se fez no dia anterior e em que se dá os bons dias. Esta actividade é semelhante e é feita no final do dia. Ao fazê-la, estamos a aumentar:

- noção de si;
- literacia emocional;
- respeito pelo outro;
- sentido de responsabilidade (percebo que o meu comportamento pode ajudar ou prejudicar o outro e assumo o que fiz - o que fará com que pense, da próxima vez que vá repetir o comportamento, caso ele seja prejudicial);

O professor, com base neste quadro, deixará de ter tanta necessidade (se é que terá, no médio e no longo prazo) de ameaçar e até humilhar a criança com 'olha que ficas de castigo', 'olha que vou escrever à tua mãe'. O professor terá, na sua sala de aula, uma turma super interessada e que se sente tida e achada na sua própria aprendizagem e que sente que é responsável pelos comportamentos que escolhe. Dito de outra forma, a criança passa a ser parte activa e não passiva. E quando isto acontece é vê-la cooperar sem termos necessidade de usar os outros métodos.

Ao desenvolvermos estes pontos todos estamos a trabalhar a inteligência emocional da criança. 



Agora que sabes disto tudo, valerá a pena continuar com estas tabelas com os sóis e as nuvens?

9 comentários:

  1. Eu utilizei essas tabelas na hora de ir dormir. Se ela colaborasse na hora de ir para a cama (xixi, lavar destes, etc) e se não lutasse contra o sono, então tinha uma lua na manhã seguinte. Ao fim de 15 dias, um presentinho (um livro, uma revista...). Comecei a usá-la numa altura caótica e funcionou. Agora só a uso quando ela se lembra. Acho mesmo que ajudou a moldar o comportamento. No entanto, é verdade que acho sempre que estou a comprá-la...

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  2. Eu cá não sou a favor de estrelas, tabelas, recompensas, muito por influência da minha educação, da minha mãe.
    Ela sempre nos passou a ideia que temos de estudar, trabalhar e ajudar em casa porque era o nosso papel, o nosso dever enquanto elementos de uma família. Não havia recompensas no final do ano por passarmos, não havia trabalhos domésticos em troca de dinheiro. Havia sim muitos beijos e abraços e muitas frases do tipo: "Eu tenho os filhos mais lindos do mundo!", "A mãe está rica com estes filhos!", "Ninguém tem filhos como eu!". Ouvimos vezes sem conta e ainda ouvimos. Nunca houve uma bicicleta por passar o ano, a bicicleta chegava consoante o orçamento familiar e podia ser a meio do ano, até podia ser depois de chumbar um ano. Ainda hoje nos diz (ao ver educarmos nós os nossos filhos) que as estrelas e quadros das escolas só promove a competição desleal, só cria crianças que não ficam preparadas para o futuro, que dá uma visão destorcida delas. A minha mãe tem hoje 63 anos, não teve uma mãe como modelo e tem pouca formação escolar mas diz tantas coisas certas (algumas erradas, como todos nós) mas educou-nos muito bem. Tem hoje 3 filhos adultos, responsáveis, felizes com a vida, com autoestima e sempre prontos a ajudar o próximo. Eu quero fazer parecido com ela...

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  3. Magda, não percebi: como é que é com os mais pequenos? os under-2?
    eu sei que a educadora do meu filho promove o momento dos bons dias, cantam a musiquinha em que se identificam a si próprios e aos outros, mas eles não falam, ainda, como é que este momento de os pôr a falar sobre comportamentos se pode transpor para os mesmo "mais pequenos"?

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    1. Pipas, não é porque não falam que não compreendem. Nestas idades não devemos pensar que os miúdos não percebem porque sim, percebem. Devemos explicar os sentimentos com uso de imagens, por exemplo, com recurso a muitos exemplos. Dali a nada há mtos a explicarem-se! Um passo de cada vez :)

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  4. Olá! Já fui educadora de infância. Abandonei pelas circunstâncias e agora não volto por opção. A verdade é que SEMPRE que procurei implementar pedagogias no sentido de promover uma maior e melhor consciência do eu, meu, tu teu e o nosso, maior cooperação entre elas e responsabilidade na tomada de decisões e escolhas de atitudes e comportamentos, lá vinha alguém que aniquilava as minhas crianças activas, porque se elas fossem passivas, até davam menos trabalho... e às 25 e 30 em cada sala, às vezes com fraldas é uma luta dificílima! ainda acho que tudo terá que começar por reduzir o número de crianças por turma. E muito!
    Adorei a dica! Identifiquei-me logo. E sim. Se os smiles não forem retirados das dinâmicas ao fim de um mesito, é melhor repensar as estratégias, ou a acomodação ao comportamento ou atitude indesejada, concretiza-se.

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  5. Olá Magda! Seria possível me indicares sites ou livros que falam sobre essa alternativa que apresentaste? Que ensinassem na prática como fazer.
    Obrigada!

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  6. Olá Magda! Será que me podias indicar sites ou livros que ensinam, na prática, como implementar esta alternativa que apresentaste?
    Obrigada

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  7. Eu pessoalmente, odeio essas tabelas com cores ou sol e nuvens para o comportamento. A alternativa que propões é utilizada nas salas e escolas que usam o MEM. Não é novo. Para os educadores interessados é ir conhecer um pouco da metodologia MEM. Mas está integrado num conjunto de outras coisas e forma de trabalhar.

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Obrigada por leres e por comentares!
Todos os comentários são bem-vindos excepto os que 'berram alto'...Esses são, naturalmente, eliminados!

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