Guest Post : Clavel's cook [no dia mundial da alimentação]

16.10.13



Já me referi a este blogue como sendo um dos mais interessantes e bonitos da culinária, em Portugal.
É fantástico ver o que uma pessoa sozinha consegue fazer, quando ama de paixão aquilo que faz. A atenção ao detalhe, a simplicidade refinada e a forma como nos contagia é impressionante.
Podes segui-la aqui.


O Palato Educa-se

Hoje o post tem um cariz diferente. Não deixo de trazer uma receita, mas trago, também, uma reflexão muito íntima. Isto surgiu com um convite irrecusável, a doce Magda do Mum's The Boss, desafiou-me a fazer um guest post acerca da educação. A Magda sabe que tenho uma filha pequena e que me interesso muito por artigos sobre educação. Mas escrever é diferente. Não sou uma escritora exímia e o meu blog é, essencialmente, de partilha de receitas. Então, como cumprir com os requisitos pedidos? Resolvi escrever sobre o que penso sobre educação alimentar.

Pois bem, antes de começar gostaria que tivessem em atenção que este é um texto de opinião, que não é nenhum estudo científico e que eu não me sinto superior a ninguém, nem acho que saiba mais do que o resto das mães/pais. Mas tenho uma vantagem, dou workshops de culinária a crianças e houve casos recorrentes onde me baseio nas afirmações que irei proferir, mais adiante no texto.

Ao longo destes 4 anos que sou mãe venho-me a deparar que efectivamente o palato é educável. Lembro-me que quando era criança eu e os meus irmãos (somos 4) tínhamos hipótese de não gostar de uma só coisa. Em nossa casa não havia "não gosto". Era proibido, tínhamos obrigatoriamente de comer de tudo. E o meu alimento escolhido para não gostar era o feijão, porque, efectivamente, eu não gostava de feijão. Mas, mesmo assim, o meu pai insistia comigo "Come só um feijão, só um, filhota!" e eu forçava-me imenso, não me sabia nada bem, mas lá comia 1 feijão. Até que um dia, durante a mesma lenga-lenga, comi um feijão e incrivelmente soube-me mesmo bem! Pedi mais um e servi-me de uma colher de sopa. A partir desse dia, percebi que afinal já gostava de feijões. Ou seja, a insistência do meu pai ajudou-me a educar o meu palato até começar a gostar do ingrediente.

Hoje, como mãe, não sou tão exigente como o meu pai, mas continuo a não permitir o "não gosto", muito menos o "não gosto" sem antes experimentar. Vocês não imaginam como irão ter surpresas se forçarem os vossos filhos a experimentar de tudo. A Maria não queria experimentar manjericão, e pensam vocês, manjericão é normal que qualquer criança não goste, pois bem, foi o que eu imaginei, mas ela provou e adorou! Hoje pede-me todos os dias tomates com manjericão. E não é por ser minha filha, é porque prova de tudo, acreditem.

Por isso, este meu texto prende-se somente com o facto de começarem aos poucos a insistir com os vossos filhos, come só este bocadinho de tomate, ou só um bocadinho de alface (vê, coloquei um molho diferente e até é doce como o ketchup). Inovem, brinquem com a comida, contem histórias, transformem os alimentos, apresentem novas texturas. Os resultados aparecem, e há momentos surpreendentes. 
Tenho casos nos workshops que são fantásticos, crianças que não comiam sopa, mas que depois de serem eles a fazê-la, comeram-na toda, um rapaz que odiava morangos, e que afinal agora gosta, uma menina que não gostava de coentros, mas que "afinal fica mesmo bom nesta comida", um rapaz que se recusava terminantemente a comer legumes, mas que os comeu nuns ovos mexidos por ele! Abram as portas da vossa cozinha, deixem-nos participar num dos momentos mais importantes para a vida deles. E, lembrem-se, os alimentos são os melhores e mais eficazes medicamentos para a nossa saúde. Se nos alimentarmos bem e tivermos a dose certa de vitaminas, proteínas e minerais, praticamente não necessitamos de mais nenhum suplemento para nos proteger.




A Maria João Clavel acerca da Maria João


Sou MÃE, mulher, professora e apaixonada pela culinária e fotografia. 
Sou licenciada em design gráfico e dou aulas de multimédia da Escola Artística Soares dos Reis.
O facto de estar sempre em contacto com as artes permite-me evoluir como criativa e fotógrafa. Hoje vejo o meu blogue como um espaço meu, onde posso criar à vontade, sem ter de ter regras, nem prazos, nem seguir vontades, a não ser as minhas. Adoro o que faço, vivo e transpiro pela vontade de ir para a cozinhar criar algo novo e todo o processo criativo que me leva à criação do set fotográfico. 
Hoje, finalmente, posso dizer que encontrei a forma de me expressar através da comida que elaboro e das imagens que capto. 

10 comentários:

  1. "Já me referi a este blogue como sendo um dos mais interessantes e bonitos da culinária, em Portugal.
    É fantástico ver o que uma pessoa sozinha consegue fazer, quando ama de paixão aquilo que faz. A atenção ao detalhe, a simplicidade refinada e a forma como nos contagia é impressionante.
    Podes segui-la aqui."

    Não podias ter feito melhor descrição Magda.
    Parabéns pois a escolha foi mais que perfeita. A Maria João é minha mana de coração e eu sou fã nº 1 ainda não existia este maravilhoso blog,

    Em relação a este fantástico e educativo post eu sempre fui assim como mãe e educadora.
    Também não aceito um "não" sem provarem. Respeito que não gostem pois eu tambem não gosto de algumas coisas, Poucas, pois eu adoro cozinhar e comer :D
    Mas não me obriguem a comer canja e ameixas :P

    Tenho 2 filhas. Uma de 14 e outra de 4. A mais velha, a Beatriz, é mais esquisita que a mais nova, a Joana. A Joana adora e devora fruta. Come legumes e adora experimentar. Nunca fui daquelas mães que fazem segundos pratos para os filhos e de preferencia tudo passado.
    Ah não, nem pensar. Cá em casa desde pequeninas sempre comeram da nossa comida, o mesmo que nós e o mais variado possível.

    Na vida profissional tento passar o mesmo aos meus meninos. Sou auxiliar de jardim de infancia e tambem nao aceito um "nao" sem provarem. Nao obrigo ninguem a comer mas tem de provar e depois chegam a conclusao que afinal gostam ;) Se vejo que nao gostam mesmo tambem respeito e nao obrigo. Mas se vejo que é por capricho e mimo não saiem da mesa sem darem umas belas garfadas ;)

    Nem de proposito hoje fizeram espetadinhas de frutas e os putos deliraram e adoraram comer. é muito mais divertido e por isso, como diz a Maria João e muito bem, se veem que os vossos filhos tem dificuldade em comer peças inteiras façam maneiras diferentes. Mas não descasquem a fruta pois é ai que estão as vitaminas mais concentradas.

    A filha de uma amiga minha não comia maçã e chegou a casa a pedir maçã para comer. Ela tinha estado ca em casa a lanchar e eu cortei aos gomos fininhos e ela adorou. A minha amiga ficou espantada. Sempre que a miuda vinha ca gostava sempre de tudo e comia de tudo. Pois é!!!! Se formos diferentes na cozinha é muito melhor ;)

    Peço desculpa por me ter alongado. Hoje estou inspirada :D

    Beijocas às duas muito doces ;)

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    1. Mana... uau... Estou sem palavras... Obrigada é o que consigo dizer-te!

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  2. Minha querida. Foi um prazer enorme este desafio. Quando me falaste aceitei logo, não tinha como não recusar, mas depois fiquei a pensar "ohh não, onde me fui meter!" Mas isso é o mais entusiasmante, sair da zona de conforto! Obrigada Magda. Adoro toda a tua maneira de pensar e estar aqui é, verdadeiramente, um orgulho!

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  3. Gostei de ler até porque vai de encontro ao que acredito e procuro colocar em prática na minha casa, com o meu pequenino. Ele adora comer e raramente nega o que quer que seja, mas há sempre uma coisa ou outra que lhe causa estranheza. Nada como experimentar, como insistir. :)
    Afinal de contas estamos cá para mostrar o mundo aos nossos filhos, neste caso o gastronómico.
    Obrigada pelo artigo. Já guardei o site nos Favoritos! :D

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  4. Gostei muito do post e é engraçado como temos muito em comum: também sou Maria João, gosto muito cozinhar e tento sempre recriar as refeições cá em casa, sem abdicar, no entanto, da qualidade e de conceitos base para uma alimentação saudável (sendo que a alimentação mediterrânica é a minha preferida). Partilho também da ideia que o palato educa-se, digo muitas vezes esta frase e por isso quando li o post parecia que tinha sido escrito por mim. Também acredito que as crianças devem ser incentivadas a experimentar de tudo e se "não gostam" têm de experimentar pelo menos e se continuarem a não gostar procuro sempre colocar uma pequena porção no seu prato. Nunca faço pratos diferentes e inclusivamente tenho uma filha que é alérgica ao glúten e por isso preferi alterar a dieta de toda a família a esse nível em vez de fazer coisas separadas para ela (felizmente hoje já se encontram alternativas muito interessantes no mercado e nem foi assim tão difícil). Outra coisa que acho importante são os pais serem o modelo principal para os seus filhos: eu própria tenho uma recordação de infância sobre como pode ser importante as crianças observarem os mais velhos a comerem bem: quando era pequena dizia que não comia courgette, até ao dia em que vi a minha avó (já idosa) a comer com muito gosto (ela nem se apercebeu que o fazia) uns grandes pedaços de courgette cozida, de tal maneira ela saboreava a courgette que eu, por iniciativa própria, decidi experimentar. Até hoje adoro comer courgette cozida... Porque a comida também é isto: trazem-nos boas lembranças, é família reunida, é celebração da vida e tudo isso para mim é central na nossa vida, para mais quando temos filhos pequenos.
    Mas nem tudo são rosas e se são momentos que privilegio e dos quais não abdico, por considerar que são basilares na formação das minhas filhas, também acontecem momentos de algum (muito stress) e por isso também venho à procura de algumas respostas para melhorar a minha atitude enquanto mãe quando as coisas à mesa complicam.
    Maria João

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    Respostas
    1. Querida homónima, muito obrigada por tão simpáticas palavras. É tão bom saber que há tanta gente a pensar da mesma forma. Fico muito feliz e o meu maior desejo é um dia ser grande combatente da obesidade infantil. Beijos enormes e mais uma vez muito obrigada por este testemunho.

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  5. Gosto tanto da Miss Clavel, tanto tanto que nem imaginas! beijos

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  6. Os meus filhospunham para o lado enquanto deixei. A cada um deles, aos 3 anos expliquei-lhes k havia uma rega nova: tudo o k eu punha no prato era p comer, e podiam repetir o k gostassem. De inicio faziam caretas, diziam k nao queriam. Ensinei-os a misturar com o arroz ou outro alimento do prato. Rapidamente passaram a aceitar e a pedir mais daquilo k mais gostavam.

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Obrigada por leres e por comentares!
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