Seguram a mala no braço, colocam-se muito direitas e abanam
a anca num swing que até pode fazer sorrir. Calçam sapatos com tacão e trazem as unhas envernizadas, uma ou outra madeixa
discreta. O lápis dos olhos é preto.
Têm 9 anos.
Parecem senhoras em ponto pequeno.
Há mais uma - a que está ao lado tem 7 anos. Traz também uma
sandália de rampa ou cunha, como quiseres chamar. Discreta, mas seguramente com
uns 3 cm. A sandália, claro.
Repito: têm as três miúdas, 9 e 7 anos.
Usam as expressões da moda que ouvem regularmente e acham-se
iguais às mães, às tias e às amigas delas todas.
‘Não se aguenta!” exclamam, a rir.
Ao fundo, as mães olham para elas com um ar embevecido. Uma
delas diz que não teve outro remédio que não comprar umas sandálias de rampa
para a mais nova. Ao que parece, não se calava “que queria umas”. Ao que parece
também, a mais velha já andava passada porque a mais nova queria as sandálias
dela. E nisto não há partilhas, pois claro!
Tudo isto faz-me pensar num programa que ouvi na rádio, na
TSF aqui há um mês. Os autores falavam que hoje em dia os pais passam os
limites do sensato e do razoável e entram de rompão na vida dos filhos, sem que
nada lhes tenha sido pedido. É como se violassemos a intimidade dos miúdos. É
como, ao mesmo tempo, os apressássemos para uma ‘aventura’ em que desejamos
estar ao mesmo nível que os amigos. É como se desejássemos conhecer e partilhar
os detalhes do evento.
E por muito que nos possa custar, o primeiro papel dos pais
é a do educador. E ser educador passa também por frustrar a criança. Dar-lhe
orientações, estabelecer regras. Certificar-se que a criança cumpre. E para o
fazer estamos numa posição de orientação/guia e nunca lado a lado. Somos amigos
mas esse não é o nosso primeiro papel. Ok, também estamos ao lado mas não somos iguais. Damos
mimo, guiamos e também temos o papel do mau da fita, volta e meia. Daquele
que sabe que há coisas que têm de ser. Mesmo que não se goste.
Mas ser educador também passa por se sentir frustrado. E
gerir aquele ‘não gosto de ti, não sou mais teu amigo’, que lhes sai pela boca
fora.
Ora, quando a tua filha te disser uma coisa destas, ou fizer
semelhante birra que te põe os cabelos nos ares, achas que é motivo para lhe
dares uma coisa que tu não queres? Se tu achas que não, então explica,
contextualiza e fica na tua.
Ou achas que fica fofinha e tipo uma mulherzinha de
sapatinho de rampa e que pronto, todas as amigas têm e não faz mal, são sinais
do tempo?
Porque razão precisas
de apressar o que inevitavelmente virá a acontecer mais cedo ou mais tarde?
Porque razão não lhe consegues dizer que não?
Hoje deixo-te com estas duas questões.
A resposta à questão passa muito por
Dar aos filhos aquilo que eles
precisam e não apenas [ou só] aquilo que eles querem.


É isso... também ouvi esse programa. É um erro os pais quererem ser os melhores amigos dos filhos. Os pais são pais, não são os melhores amigos. É saudável os filhos terem os melhores amigos da idade deles e depois, em casa, terem pais que, sendo amigos, são primeiramente pais que nem sempre lhes dizem aquilo que eles querem ouvir, mas que os orientam e protegem. Eu espero saber lidar com isso quando as minhas filhas chegarem a essa fase... mas que mete medo, mete :)
ResponderEliminarPenso exactamente como tu.
ResponderEliminarCusta dizer não, custa obviamente, às vezes as birras deles parecem tirar-nos o ar, mas quando mantemos a nossa e chegámos à conclusão que era pura birrinha, respiramos de alívio pois sabemos que fizemos a coisa certa. E essa sensação de alívio é muito importante!
Infelizmente as crianças saltam etapas, muito por culpa dos pais que se deixam ir na onda, para não serem criticados, para serem apelidados de fixes. Felizmente sou tradicional e moderna também, mas à minha maneira! :)
Eu pessoalmente sinto-me "aterrorizada" com o caminho da educação, porque se por um lado se desresponsabilizou totalmente as crianças, por outro ajudam-nas a crescerem mais depressa e saltar etapas, sem nunca lhes fazer ver que crescer acarreta mais responsabilidade!
ResponderEliminarÉ só pedir e já está! Nas meninas penso que o consumismo é brutal e agressivo, quanto aos meninos de repente vão ser todos CR, que me irrita profundamente tendo eu um menino ... eles é cabelo é tiques enfim um inferno!
A parte de ser educador está muito mais dificultada, porque temos que ter capacidade de responder ao seguinte "mas ele tem e eu também quero" " a mãe de ... é que é fixe compra-lhe tudo"! As comparações, as competições enfim está o caos implementado na orientação das crianças e no método dos pais.
Espero conseguir ter sempre a capacidade de me orientar no meio de tanta confusão.
Não podia concordar mais. Muito bom artigo, como sempre. :)
ResponderEliminarA minha também quer uns sapatos iguais aos meus (salto) e por enquanto vou dizendo que só existem para adultos (aqui na 'província' ainda não se vêm essas coisas ao virar da esquina!). Se aparecerem, pois vou ter que dizer que não e explicar porquê, e ouvir uma resmunguice mas faz parte...
ResponderEliminarExcelente post. Concordo plenamente... tudo tem o seu tempo.
ResponderEliminarMagda
Também acho!! Eu podia ter escrito isto, a sério!
ResponderEliminarQuando digo este tipo de coisas, sinto sempre os olhos dos meus amigos revirarem-se e tenho a certeza que me acham retrógrada. Sinto que remo contra a maré!| Tão bom ler isto, Magda...
A sério que eu, por mim, eles vão sair à noite lá prós trinta! :)
Gostei imenso deste tema! Não acredito que algum dia tente ser a melhor amiga dos meus filhos, porque o que eu gosto mesmo é de ser mãe. Lembro-me, quando tinha uns 12/13 anos, a minha melhor amiga era a melhor amiga da mãe, nós íamos as 3 para todo o lado, a mãe dela era uma diversão e eu tratava-a como se fosse uma das nossas. No entanto, confesso que, mesmo gostando de toda aquela envolvência, aquilo me soava sempre a muito estranho... Escusado será dizer que deu para o torto e bem torto e, a minha melhor amiga, agora trintona como eu, nem sabe a falta que uma Mãe lhe fez...
ResponderEliminarPara quê ter tão cedo aquilo que tem seu tempo. Cada idade, cada fase deve ser vivida como tal. As minhas filhas já perceberam que não vale a pena fazer birras. Se não é adequado à idade delas não têm. Incentivo muito a minha filha mais velha, de 13 anos, a fazer jogos didáticos e a brincar com bonecas com a irmã de 5 anos. O meu papel perante elas é de ser a melhor mãe possível.
ResponderEliminarPara quê ter tão cedo aquilo que tem seu tempo. Cada idade, cada fase deve ser vivida como tal. As minhas filhas já perceberam que não vale a pena fazer birras. Se não é adequado à idade delas não têm. Incentivo muito a minha filha mais velha, de 13 anos, a fazer jogos didáticos e a brincar com bonecas com a irmã de 5 anos. O meu papel perante elas é de ser a melhor mãe possível.
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