GUEST POST
Post by As Maravilhas da Maternidade AKA Maria de Lurdes :)
Eu não sou a pessoa ideal
para uma introspecção sentida e um texto inspirador ou arrebatador. Talvez seja
demasiado cínica, ou demasiado pragmática, ou me falte o verbo, ou o que me (co)move
não corresponda ao que (co)move os outros. Eu detesto lamechice, reviro os
olhos a textos arrebatadores e piegas, não tenho pachorra para inspirational
speeches, sou mais pela punchline e pela pragmática.
Mas um guest post de
reflexão a pedido da Magda, nunca seria com as velas viradas à lamechice, seria
virado à profundidade, ao saber de prática e experiência feito, a mexer um
pouco no que nos vai cá dentro, sem filtros e arabescos.
Posto isto, vamos a uma
introspecção - Do céu para a terra. À ideia de felicidade suprema, vejo-a mais como algo conceptual, algo
perfeito, e portanto, inatingível. A “felicidade” seria ter a família sempre
em paz, com saúde, um trabalho 100% satisfatório, marido amantíssimo com
disponibilidade de tempo, muito tempo para viajar para sítios fantásticos, ler
e estar com quem gosto, ganhar o euromilhões e fazer apenas o que me apetece,
não levar qualquer crap de pessoas que não me agradam, um walking closet de
estrela, horas de spa por semana. Mas isso nunca irá acontecer. Pelo menos
nunca tudo junto ou ao mesmo tempo. Há uma máxima que eu adoro e que é um
óptimo alívio para a alma – tu
podes ter tudo, mas não ao mesmo tempo. Por isso, ser num dado momento feliz em
todos os quadrantes é uma utopia, há sempre alguma coisa que falta. E
nunca é constante.
De facto, a felicidade para mim é o somatório
dos momentos de felicidade conscientes ou inconscientes que vivo ao longo dos
anos e que consigo coser na minha memória como uma linda manta de retalhos.
Ter imensos retalhos é a
minha felicidade suprema. Sinto que sou felizarda na minha vida, sei que
as coisas em geral me têm corrido muito bem e que sou feliz. Porque tenho uma
manta de retalhos linda, grande e muito colorida, feita de momentos só meus,
com o meu amor, com o meu filho, com a família que eu criei, com a que me
criou, com os meus amigos, com os meus projectos, com a minha casa, com o lugar
e tempo em que nasci.
Ainda há pouco vi ser
criado mais um dos meus retalhos. O meu filho apareceu-me na sala, ainda
estremunhado da sesta e embrulhou-se nos meus braços, suadinho, a responder às
minhas perguntas com um sussurro de ternura. As minhas perguntas eram doces,
porque ele tem quase três anos e é todo feito de inocência e marotice, e assim
ficámos, num abraço calmo, a conversar docemente. Até aparecer o meu marido e
nos apanhar nesse namoro e rirmos mais um pouco e irmos lanchar, simplesmente. Aperceber-me que esse momento
tão singelo era um momento de felicidade, perfeitinho, que criei ali mais um
retalho para a minha manta, é uma enorme felicidade em si, porque este não me
escapou. Ele aconteceu, eu vivi-o bem, eu percebi que era um momento de
felicidade e vou sempre lembrá-lo com essas honras. Outros momentos me podem
ter escapado, por não me aperceber deles ou por não os ter vivido por um triz,
porque o miúdo está mal disposto, ou o marido está a trabalhar, ou simplesmente
por não os valorizar como momentos de felicidade. Para outras pessoas pode ser
pouco, para outras pode ser isso mesmo. Para mim, são momentos assim, aparentemente
pequeninos, que se juntam a momentos grandiosos que nos fazem felizes, ainda
que não sejam perfeitos.
Também momentos pequeninos são os que me trazem angústia
e infelicidade. Não são apenas as
fatalidades, não são apenas as grandes questões, os grandes problemas. São momentos maçadores os que nos
moem, os que nos vão lapidando até achegarmos ao fim do dia e pensarmos “Que
dia horrível e em que é que o gastei?” É o computador que demora a
desenvolver e nos tira tempo e paciência, são as mil coisinhas que temos para
fazer, é a papelada acumulada, é o e-mail que não pára de apitar, é o telemóvel
salvador-carrasco, é a minha desorganização patética, é o meu filho que não me
obedece à primeira, nem à segunda, é o marido que nunca mais chega, é a casa
que se desarruma sozinha, é a nortada que me estraga o cabelo mal penteado e os
planos longínquos de praia, é os outros a queixarem-se sem fim das mesmas
coisas ou de outras que eu considero ainda mais patéticas e eu só penso, “mas
se eu não me queixo, tenho que te ouvir a toda a hora porquê? Suck it up!”
Essas pequenas coisas são as que me exasperam, deixam-me
mais afectada do que gostaria, e elas verdadeiramente interferem com a minha
felicidade. Porque toldam outros momentos, ou fazem com que eles não aconteçam.
Um pequeno momento não preenchido de infelicidade, é um momento que se pode
preencher de felicidade, necessariamente.
E muitas vezes basta mudar a nossa reacção aos factores
externos para sermos mais felizes,
para estarmos mais contentes. Eu, por exemplo, não sou uma pessoa paciente, nem
resiliente, mas estes são aspectos que tenho tido oportunidade de contrariar
com a chegada do meu filho. Haja paciência! E eu lá vou tricotando muita dela. O meu filho e o seu
comportamento é o factor externo que mais me mobiliza, que mais me afecta, mas
que ao mesmo tempo mais depende de mim para mudar ou moldar. Curiosamente,
o facto de eu não ser paciente nem resiliente faz com que eu não tenha uma
paciência infinita com o meu filho, faz com que eu não seja demasiado elástica
com ele, o que até joga a seu favor. Eu não digo as coisas muitas vezes, ele
sabe que se pisa o risco e abusa da minha boa vontade, vai ter consequências
certinhas como o destino, ele sabe que a estrutura está lá, e que essa
estrutura é dinâmica, mas que não é elástica. A minha falta de paciência é transformada pelo meu filho
em estrutura, em firmeza, em “eu sou mais teimosa do que tu, a minha
vontade é mais constante e consciente, eu sou a mãe”, apenas porque não estou para prolongar a situação,
e fazer-lhe a vontade é prolongar a situação, a médio e longo prazo, não se
corta o mal pela raiz.
A parentalidade positiva entra na minha vida para dar um
nome à minha mudança de atitude, é o rótulo desta transformação. Parentalidade
positiva é criar felicidade pelo nosso comportamento, em família. É algo que tem de ser trabalhado, é algo que tem
de estar consciente em nós, que nós temos de apre(e)nder, mas é algo que pode surgir não apenas
por filosofia de vida, mas por conveniência, porque é o que na prática nos
torna uma família mais feliz, não apenas pela felicidade em si, mas pelo evitar
de infelicidade, pela estrutura que gera calma, pela estratégia que substitui o
improviso, pela acção em vez da reação, pela segurança, não caos e incerteza.
Pode ser gerada por conveniência, e pode ainda surgir pela transformação dos nossos defeitos, ninguém
precisa ser bonzinho ou “fofinho” para praticar a parentalidade positiva, basta
estar consciente dos seus defeitos ou limitações e tentar moldá-los a
favor do que mais desejamos, a calma e a felicidade, e a favor de quem mais
amamos, os nossos filhos, a nossa família, a nós próprios. Assim, a impaciência transforma-se em
estrutura e limites bem estabelecidos, e nunca chega a ser uma perda de
controlo. A preguiça
transforma-se em não estarmos sempre disponíveis para todas as vezes que
eles queiram fazer a mesma brincadeira connosco, mas lhes proporcionemos
momentos de brincadeira a sós no seu espaço, que os ensinemos a estar sozinhos,
ou que aprendam a apreciar o silêncio, e nunca chega a ser negligência ou
indisponibilidade. A ira
transforma-se em saber dizer não, e não é não, e nunca chega a ser um
ataque de fúria, ou uma agressão. A avareza ou as carências económicas transformam-se em frugalidade,
em qualidade em vez de quantidade, em resistência aos caprichos, deles e nossos,
e nunca chega a ser uma frustração ou vergonha. A vaidade e egoísmo transformam-se em fazermos questão de
termos momentos apenas para nós, de nos cuidarmos, para que o espelho
continue a reflectir uma imagem que nos encoraje, e nunca chegamos a ser
narcisistas ou desencantadas. E por aí fora. Todos os nossos defeitos, ou todas aquelas coisas que nos
fazem bem humanos e limitados, podem ser acolhidos e viradas do avesso, por
forma a serem os activadores de comportamentos que venham a beneficiar a todos.
Vejo e tenho muitos
momentos A-ha! com a parentalidade positiva, mas também vejo muitas reacções de
“isso é inexequível, isso é tudo muito bonito, mas…” Eu sou uma pessoa bem limitada, cheia de
defeitos e, no entanto, a parentalidade positiva transforma as minhas
limitações em mais-valias e eu continuo eu com os meus defeitos, mas virados do
avesso pela positiva.



Obrigada pelo convite, querida Magda, foi um privilégio e enorme orgulho "inaugurar" esta rubrica, fico a aguardar as próximas com expectativa!!
ResponderEliminarBeijinhos e obrigada também pela reflexão que me proporcionaste
Acompanho o blog da Maria e adoro. Adoro o seu estado de graça, a sua doçura e firmeza. O seu texto logo pela manhã soube-me tão bem. Eu, mãe de um filha de 20 meses, seguidora de uma parentalidade positiva que fui e vou aprendendo com a Magda, bebi todas as palavras numa sede de tarde de verão. Sinto necessidade de, com tempo, voltar a reler.
ResponderEliminarObrigada às duas por nos proporcionarem esta partilha.
Adorei! Obrigada Magda Obrigada Maria de Lurdes! Cada vez que as sigo sinto-me identificada não pelo que sou (ainda tempo muito para apre(e)nder) mas naquilo que quero tornar-me. Acho que vou imprimir este texto para lê-lo várias vezes. Vocês são uma inspiração!
ResponderEliminarAdoro quando leio textos magníficos como este e me identifico, me revejo neles no meu dia a dia! Aida Ribeiro
ResponderEliminarestá óptimo de se ler :)
ResponderEliminarQue bom ler aqui estas vossas palavras, fico muito feliz por partilharem, por se reverem e por terem lido até o fim :))
ResponderEliminarBeijinhos a todas
Que bem que escreve a ML, estou maravilhada!
ResponderEliminarE este texto leva-me a ficar ainda mais ansiosa pelo workshop de sábado.
Quero conseguir exteriorizar assim, um dia, quem sabe.
adorei! revejo-me imenso porque tb sou uma pessoa com paciência limitada, mas ler sobre a parentalidade positiva tem-me ajudado muito a rever as minhas acções e a refletir sobre o que estou a pensar fazer (dar vontade imediata) e corrigir na hora para mais tarde nao me arrepender. :)
ResponderEliminarNão sabia que o que tento fazer todos os dias em casa e com o meu filhote de 18 meses se chamava parentalidade positive. Adorei a reflexão e revi nela tudo o que, por instinto, me encorajo a fazer diariamente desde que sou mãe e esta forma de estar enche-me o coração de amor para dar e de auto-estima. Ser mãe foi como se o Mundo parasse e vi tudo com mais clareza, é vestir várias camisolas e fazer com que elas nos fiquem bem. Vou-me informar mais sobre o tema e obrigado por partilhar.
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