quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.




A propósito desta crónica e deste post...

Se é verdade que as crianças são, por natureza, irrequietas, barulhentas and so on, também é verdade que os tempos em que vivemos não são iguais aos que eu vivi, há 30 anos atrás.
E sim, a essência das crianças quando nascem é a mesma que há 30 anos atrás. Mas os tempos são outros e portanto é natural que o produto final seja também ele, diferente.


Antigamente as dificuldades de aprendizagem eram maioritariamente explicadas ora por o aluno ter mais ou menos capacidade de aprender, mais ou menos capacidade em concentrar-se, mais ou menos apoio em casa. Hoje em dia adiciona-se a isso tudo a possibilidade de ter um problema maior. Hoje em dia há mais informação, há mais gente a trabalhar nestas áreas.

Acredito também que se confundem as coisas com muita facilidade. E um miúdo sem regras, um bocadinho ‘selvagem’, é rapidamente catalogado como hiperactivo quando, na grande maioria das vezes não o é e está longe de o ser. E tudo aquilo que ele precisa são regras, poucas e boas e firmes. Por isso, a verdadeira missão dos pais é colocar essas regras. Simplesmente isso! Porque crescer sem elas é do mais angustiante possível. Uma crianças que percebe que os pais não conseguem colocar-lhe limites, é uma criança que percebe que os pais não a conseguem proteger.


E se por um lado isto é verdade, por outro também é verdade que os miúdos (e nós também! -  caramba, quantos de nós estamos em frente à TV, com o computador no colo e a falar ao telefone?) estão rodeados de ‘incentivos’. A prova é que a Generation Y  é uma geração que já tem uma grande dificuldade em fazer só uma coisa ao mesmo tempo. Ora está a ler um livro e a teclar no telemóvel, ora está a escrever um texto no computador e no Messenger, por exemplo). Isto não é hiperactividade. São sinais do tempo.

Todos os dias temos acesso a demasiada informação. E mesmo para alguém que, como eu, não tem nenhum canal de TV, a sensação pode ser avassaladora. Basta-me ter Facebook.  Separar o trigo do joio não é fácil. O que é fácil mesmo é saltar de informação em informação e encontrar informações contraditórias. E como é tão fácil aceder a qualquer tipo de informação, tornamo-nos pequenos especialistas em determinadas matérias. De médico e de louco todos temos um pouco, não é? E torna-se assim tão fácil chutarmos um ‘é hiperactivo, o rapaz!’ ou ‘se aos 5 anos já consegue escrever/ler/fazer o jogo XPTO é porque é sobredotado’. E pimbas, já levou com uma etiqueta em cima!

E quando as crianças passam a ter ou estão em vias de ter uma etiqueta, a nossa angústia é tal que temos que consultar. Consultar e saber o que é que ela tem. Consultar para saber se a etiqueta é cor-de-laranja, salmão ou amarela.

E muitas das vezes não damos tempo ao tempo. Muitas das vezes, com o cansaço, com o excesso de informação, com os conselhos dos nossos amigos ou com o olhar desconfiado de pessoas que nem conhecemos mas que nos mandaram um ar de reprovação, não conseguimos ver se aquilo é a natureza do nosso filho ou se é uma fase. Não conseguimos pensar direito. Temos medo. Sentimo-nos de tal forma pressionad@s em ter o filho perfeito, angustiad@s por não conseguirmos modificar comportamentos que, mais cedo ou mais tarde, deixamos de acreditar que talvez ainda possamos nós, sozinh@s, a resolver a situação. E então enviamos os miúdos a uma consulta com o pediatra ou com o psi.

Estou a dizer que não deves ir ver um especialista? Não, não estou! Estou a dizer que se isso é importante para ti, porque te pode deixar mais tranquila, então vai. Isso não quererá dizer que tenhas de sair de lá com um plano de consultas semanais ou quinzenais. E digo-te mais: caso saias de lá com um plano para o teu filho, é bom que também tenhas um plano para ti. Porque não é possível que um trabaho bem feito, nestes casos seja unilateral. Estás implicad@ nisto até ao pescoço! Então que tenhas um plano também. Fala com o especialista que consultares para verem qual é o teu papel. Tu tens um papel fundamental de ajuda. Não podes ficar de fora pois não?


Mas estou também a pedir-te que páres e olhes com olhos de ver. Que páres para perceber se tens de ajudar o teu filho a gerir a frustração de não ter as coisas da forma que ele quer (ou a lidar com as birras dele). Se tens de te sentar ao lado do teu filho a fazer os trabalhos de casa e ensiná-lo a pensar. A encontrar estratégias para ele perceber uma determinada matéria. A ter métodos de estudo que lhe serão preciosos quando ele começar a estudar sozinho. Estou a pedir-te também que vejas se não há muita angústia tua aí no meio e um desejo de termos, todos, filhos perfeitos: bons alunos, meigos, que se portam bem, cómicos, empáticos e sensíveis. Quero que penses também há quanto tempo não tens tempo para ti, há quanto tempo não ‘limpas’ a cabeça e há quanto tempo andas em piloto automático, da casa para o trabalho, do trabalho para o supermercado, para a escola, para casa, para os banhos, os TPCs and so on and so on...
Quero que penses se podes poupar uma consulta e uma etiqueta.

Não corras porque achas ou te dizem que tens de etiquetar, porque achas que não és capaz. Não aches nada.

Pára! “Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.

E depois sim, aponta e dispara!

34 comentários:

  1. Vale a pena ler este post também: http://www.ritaferroalvim.com/2013/01/a-respeito-desta-cronica.html#.UP_oeqGLKgM

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  2. Excelente texto Magda. Adorei!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Olá Magda! Venho acompanhando o seu blog a um tempo, mas nunca fiz nenhum comentário, porque muitas das vezes pensava "fogo, parece que leu os meus pensamentos"... ou "precisava mesmo ler isso" e de facto hoje criei coragem e vim cá agradecer-lhe!!! Estava de volta do seu blog, quando foi postado esse e era disso que eu precisava ouvir... e são essas reflexões que terei de fazer! Obrigada por partilhares tão rica informação!

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  5. Texto fantástico que partilharei para que muitos outros o leiam também. Vale a pena pensar nisto.


    Sandra

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    1. Em primeiro lugar obrigada. Como ser humano e como pessoa é importante ler estar palavras. Que bálsamo!! É importante acima de tudo que confiemos em nós e no nosso instinto quanto a estas situações. Também estou de acordo que, por vezes, é preciso dar tempo...

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  6. Muito bom. É curioso, quando li o texto polémico lembrei-me logo desta tua explicação de que as ditas mudanças de comportamento são mudanças dos tempos, mudanças nas ofertas, nas solicitações, nas escolhas que se exigem à criança e o que isso implica.
    Nós somos seres complexos, nada tem uma só explicação, ninguém cabe numa etiqueta.
    Por uma questão de conforto/segurança, tendemos a catalogar. Por uma questão de certeza/segurança, devemos, sim, reparar e pensar.

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  7. Como sempre, muito claro e muito verdade. E permita-me acrescentar que, no meu ponto de vista, as crianças de hoje em dia têm muitas energias acumuladas. As casas são mais pequenas, quase não há quintais, é perigoso brincar na rua, as escolas e creches têm menos espaço, passam muito tempo em filas de trânsito, em ATL's e não libertam as energias que necessitam a correr, pular e subir às árvores. As crianças sempre foram activas e isso é um sinal de saúde, elas têm de ter é a possibilidade de libertar a energia de forma saudável ao contrário de estarem tão sedentárias como estão. Bjs e uma hora pequenina, Magda! Dê notícias!

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    1. sim! é verdade, muita energia acumulada, faltou isso!! Obrigada e sim, darei news! <3 Beijjnhos

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  8. "Uma crianças que percebe que os pais não conseguem colocar-lhe limites, é uma criança que percebe que os pais não a conseguem proteger." - ai, esta doeu.
    Eles testam os limites é verdade, e eles testam-nos muito, sim é verdade. Uma coisa que sempre disse é que não queria filhos paradinhos, se bem que miudos mal educados me tiram do sério e levem um puxão de orelhas.
    Temos que diferenciar a questão de colocar limites e limitar, acho que aqui vai a confusão, minha inclusivé.
    Muitos pais confundem colocar limites como não podes ter tudo, não podes fazer tudo, não se fala dessa forma, com limitar a criança, aí que coitadinha não se pode expressar.
    Mas sim, existem crianças hiperactivas, ou porque só em casa conseguem extravasar, ou porque são demasiado energéticas, ou porque têm demasiado estímulos, ou porque têm poucos estímulos. Sei lá, não pertenço à área, mas sim existem. Não são bicho raro, não são doentes, são crianças que dão mais trabalho, exigem mais atenção, mas são crianças.
    Agora e em adultos? que adultos serão?

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  9. E vale a pena ler este também: http://paisdequatro.clix.pt/2013/01/hiperactividade-polemica.html

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  10. O que eu gosto deste blog :-) as vezes que já estive para lhe "escrever" com dúvidas e que lamentei que não desse mais workshops em lx. Obrigada!

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  11. O que eu gosto deste blog :-) as vezes que já estive para lhe "escrever" com dúvidas e que lamentei que não desse mais workshops em lx. Obrigada!

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  12. Que texto tao tretas! E nem falta a cereja em cima do bolo: "aponta e dispara"! que imagem tao descabida!

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  13. :)
    Este é daqueles textos que nos põe mesmo a pensar... mas nos fazem ver que por vezes um Não é preciso, com força e determinação... e que não podem ser só Nãos, porque senão não dá para perceber o seu real significado...
    E sim, etiquetamos demasiado... O meu afilhado está etiquetado como hiperactivo... e até pode realmente ser... mas acho que o que lhe falta mesmo é atenção dos pais... e se ele tivesse um bocadinho mais de atenção não precisava de fazer 30 por uma linha para que lhe dessem uns minutos... E sim, se existir uma consulta de psicologia para a criança, também deverá haver uma consulta de psicologia para os pais, para saberem como agir...

    Muito obrigada pelos teus textos e inspirações!

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  14. Muito bom! Um texto essencial para qualquer mãe. Mas provavelmente só entendido na totalidade por quem já é mãe de dois adolescentes e conseguiu desviar-se (ainda que com muita ansiedade...) das etiquetas quer do hipertativo mais velho, quer do sobredotado mais novo. É que,de facto,a perseverança e o tempo (leia-se "bom senso") dão os seus frutos...Obrigada pelo blog.

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  15. Muito bom! Um texto essencial para qualquer mãe. Mas provavelmente só entendido na totalidade por quem já é mãe de dois adolescentes e conseguiu desviar-se (ainda que com muita ansiedade...) das etiquetas quer do hipertativo mais velho, quer do sobredotado mais novo. É que,de facto,a perseverança e o tempo (leia-se "bom senso") dão os seus frutos...Obrigada pelo blog.

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  16. Lúcia Maciel24 Janeiro, 2013

    Muito bom! Um texto essencial para quem é mãe, mas provavelmente só entendido na totalidade por quem é mãe de dois adolescentes que conseguiu desviar-se das etiquetas de hiperativo do mais velho e de sobredotado do mais novo. A perseverança e o tempo acabam por dar os seus frutos... Obrigada pelo blog.

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  17. Concordo a cada linha. Há, efectivamente uma necessidade imensa de etiquetar e catalagor, mais do que entender, aceitar e tentar resolver! Vejo isso no meu dia a dia profissional, em que os pais parece que precisam de dar um nome àquele comportamento. os pais "precisam" do rótulo para se sentirem mais seguros, para tentarem agir (ou simplesmente levar com o diagnóstico e conformarem-se). E isto é válido também para os próprios adultos...
    Parabéns Magda pelo texto certeiro, pela mensagem tranquila... como de costume!

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  18. Muito bom Magda.
    Beijinhos

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  19. Olá Magda!
    Adoro ler-te e acredita que me tens ajudado imenso...
    E este texto... puxa! Parece mesmo que o escreveste para mim! :-)
    O meu filho no fim do ano passado/início deste passou uma fase tão complicada e estranha que eu estava com muito medo que fosse algo pior...
    Marquei de imediato consulta com uma especialista, que vincou e vincou que ele era "Perfeitamente normal!"...
    Saí de lá a pensar o quanto eu poderia estar a influenciar todo o processo de descontrole dele por também não estar equilibrada... Eu ando em piloto automático há algum tempo e digamos, não sei viver aproveitando da melhor forma os dias e os recursos que tenho... Digamos que eu não coloco primeiro a máscara de óxigénio em mim... e isto está a refletir-se e muito em todas as áreas da minha vida...
    Agora sou eu que ando em consulta para tentar limpar todas as mágoas e maus sentimentos que me fizeram tão amarga com a vida... Começo agora a acreditar que um passo de cada vez e será possível eu ser cada dia melhor...
    Quero agradecer-te tudo o que partilhas...
    Eu sei o quanto isto é importante para mim e o quanto me acompanha e ajuda!
    Obrigada Magda! Obrigada por me ajudares a ser uma melhor pessoa! :-)

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    1. O que caramba... fiz eco...
      Se quiseres podes apagar o coment aqui de baixo para não ficar a "encher" aqui o espaço.;-)
      Beijinhos*

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    2. Afinal consegui eu eliminá-lo... :-P

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  20. Este comentário foi removido pelo autor.

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  21. Concordo com tudo com que disse. Mas...
    Ainda me lembro do quanto os meus pais sofreram ao longo de toda a infância do meu irmão.
    O meu irmão sempre foi o mal-educado, o selvagem e os meus pais criticados porque não o sabiam educar, não sabiam impor limites.
    Aos 14 anos foi diagnosticado ao meu irmão lateralidade cruzada, défice de atenção e dislexia. Isto há 30 anos atrás.
    O meu irmão foi rotulado e dos meus pais sai um peso de cima.
    A vivência dos meus pais fez-me ser menos critica e pensar sempre que não sei o que se passa nas outras casas.
    Porque eu sei o que se passou na nossa. Sei que havia limites, havia quintal, uma quinta, pais presentes e constantemente na escola, pais que acompanhavam nos trabalhos de casa, ...
    Os meus pais foram muito criticados por muita gente. E a "doença" estava lá.
    Com isto não quero dizer que todos os miúdos hoje em dia são hiperactivos. Só não consigo é criticar logo os pais como é feito no artigo.
    MIsabel

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    1. Obrigada pelo seu comentário, MIsabel.
      Imagino a angústia dos seus pais - criticar é tão, mas tão fácil! E há 30 anos quando as coisas ainda estavam a evoluir. Aqui está um exemplo que prova que não podemos rotular, criticar logo como tão bem diz. O que vai dentro do convento só sabe quem está dentro, não é?
      Por isso mesmo o título deste post. Não é ao primeiro olhar que sabemos a resposta! E se há resposta!

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  22. :) Obrigada!
    MIsabel

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  23. Bom Dia.
    Leio este blog há mais de um ano, começei quando ainda estava grávida e o meu filho já vai nos 21 meses :). Sou mãe de 1ªviagem e sempre pensei muito em como educaria um filho meu. Desde o nascimento dele que já dei por mim a largar muitas ideias pré-concebidas. Já percebi que realmente cada caso é um caso e "etiquetas" só na roupa...mas continuo a questionar-me muito, diárimente, ou cada vez que constato que o meu filho está numa nova "fase".
    Este blog tem-me ajudado muito em algumas destas duvidas.
    Este texto está um espectaculo, li o artigo original e realmente pensei em muito do que aqui dizes, não se pode comparar o incomparavel.
    Mas gostaria de te colocar uma pergunta, como aplicar o conceito de parentalidade positiva, em situações mais criticas? O meu filho está na fase dos "nãos" e das birras por tudo e por nada. Muitas vezes penso no que aqui leio e tento evitar a repetição consegutiva do Não, mas tem sido tãooo complicado....
    Ao final de um dia, em que temos 3h de tempo com ele, para banhos, jantar e etc, colocar os limites a que te referes aqui (e que concordo plenamente), quando ele está numa de birra e só fazer o que ele quer....como ?

    Desculpa o testamento mas há algum tempo que me debato com isto.
    Obrigada
    Bjinhos

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    1. Olá Sónia,
      quem disser que educar é fácil, leva já com a parentalidade positiva em cima!!
      Vou fazer um post a responder à tua questão de como aplicar a parentalidade positiva em situações mais críticas. Até porque é nessas situações (e em todas, pronto!) que devemos aplicá-la!
      Fica a promessa. Beijinhos

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  24. Olá,

    Fico à espera desse próximo post... da parentalidade positiva para situações criticas... pois também estou a passar a fase das birras por tudo e por nada e pelos NÃOs para tudo...

    Obrigada!

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Conta lá qual é a tua teoria ;)

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