As palavras para dizer: «Quero a minha mãe!»

31.12.12
Esta crónica maravilhosa vem ao encontro daquilo que defendo e que é:

1. Contar SEMPRE a verdade às crianças, numa linguagem adaptada à sua idade;
2. Reconhecer os sentimentos;
3. Ajudar a falar e a pôr palavras nos sentimentos.

Fica pois a crónica da querida Isabel Stilwell, que entrevistei AQUI. Avó de mimo, de afectos e uma mulher extraordinária e doce!


As palavras para dizer: «Quero a minha mãe!»



Se a mãe ou o pai não estão fale-se neles, como sempre. E repita-se que nunca as esquecem, que voltam depressa. Porque elas ouvem, percebem e registam. E sentem-se menos assustadas.

No livro do pediatra Mário Cordeiro sobre as birras, sublinhei a caneta fosforescente, um parágrafo em que pedia aos pais que fizessem o ensaio de se exprimirem apenas com uma mão cheia de palavras, e depois contassem o que sentiam. Ele não tinha dúvidas nenhumas, e eu depois de ter feito a experiência também não, que ao fim de cinco minutos estávamos aos pontapés aos móveis, a atirarmo-nos para o chão furiosos, a usar todos os meios ao nosso alcance para não deixar ninguém imune à nossa frustração. Faríamos birras, portanto.
Perante o vocabulário que cresce a uma velocidade galopante da Madalena e da Carmo, ficamos todos fascinados. À medida que dizem os nossos nomes, chamam por eles, tornamo-nos facilmente (ainda mais) seus escravos. Quem é que se importa de se levantar a meio da noite, para um «afó», choramingado do quarto ao lado?
Mas agora quando as «adoptamos» por uns dias, com toda a euforia que obter a «guarda» das gémeas nos provoca (sim, é diferente sermos avós com os pais presentes, ou avós no estatuto de últimos responsáveis pelos netos, para o bem e para o mal), surge também a dúvida: que palavras usamos para lhes explicar que a mãe e o pai não estão, mas não as abandonaram? Como é que mitigamos as saudades e a desorientação que de certeza sentem, quando não têm forma de perguntar, não têm maneira de as manifestar? A primeira tentação é deixar de falar nos pais. Afinal, estão tão bem, para quê perturbá-las?
Imagino as crianças desta idade em instituições, e sinto um
imenso arrepio. Já ouvi dizer a técnicos que «os meninos se adaptam depressa, e esquecem o passado num instante». Escutei avós que garantem que quando lá ficam em casa «nem se lembram dos pais». Mas se dúvidas houvesse, bastava ver como reagem quando passam por uma fotografia da Ana ou do Eduardo, ou tragédia das tragédias, a vêem a acenar-lhes do lado de lá de um ecrã, e desatam em pranto.
Somos uns ignorantes do que se passa na cabeça das crianças, mas camuflamos a ignorância que nos mete medo e nos remete para as nossas ansiedades infantis, com uma segurança patética. Perguntei ao Eduardo Sá, tendo o privilégio de um programa diário com ele na Antena 1, e a resposta foi definitiva: elas podem não ter as palavras para dar conta dos seus sentimentos (e quantos adultos não as têm, recorda), mas compete-nos a nós ajudar a legendá-los. Sim, mesmo que chorem, e claro, fazendo-nos sentir menos importantes, mas se a mãe ou o pai não estão fale-se neles, como sempre. E repita-se que nunca as esquecem, que voltam depressa. Porque elas ouvem, percebem e registam. E sentem-se menos assustadas.
PS – Devem as mães deixar de sair em trabalho ou de férias porque os filhos sentem tanto a sua falta, pergunto, sem querer deixar as pobres ainda mais culpadas. «Claro que não. Os bons pais são aqueles que deixam os filhos crescer e alargar a sua rede de afectos, de ligações a outras pessoas, e deixar crescer significa permitir algumas dores». Uf! a história acaba bem para todos.




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2 comentários:

  1. fez-me tão bem ler isto agora e neste momento...quando me preparo para em breve deixar os 3 filhos á avó por alguns dias e viajar com o pai....pela primeira vez desde que sou mãe "vou abandoná-los " e eu precisava ler isto .

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