Os miúdos de hoje já não são como os de antigamente

21.8.12













Num dos últimos workshops que dei, uma das participantes, com duas filhas já adultas (veio por curiosidade e porque é educadora) dizia-me, e com muita razão ‘os miúdos de hoje já não são como os de antigamente’.


Pois não. Eu também penso como ela.


Mas a questão que se impõe é: ‘afinal o que é que ainda é como antigamente?’



Nem os próprios pais (nós!!!) somos iguais.


Repara: eu não acredito que tenham sido as crianças que mudaram. Nem podem ter sido elas! O que mudou foi o ambiente (ou a sociedade) que os rodeia e que está cheia de estímulos! Ah pois é, a culpa é sempre da sociedade... ;) (piscar de olhos!)



Os miúdos não faziam birras nos hipermercados porque não havia hipermercados cheios de estímulos em grande destaque nem tão pouco os mini-mercados e mercearias estavam abertos até à hora do jantar. Os míúdos não faziam birras porque queriam comer uma determinada marca de bolachas porque, na verdade, só havia meia-dúzia de marcas de bolachas... o lanche era pãozinho com manteiga e um iogurte ou leite! Não havia tantas escolhas, não havia tantos estímulos, não havia tanto stress nem tanta necessidade de se fazerem escolhas (e estar sempre a escolher pode ser uma canseira!)

Por outro lado, e ainda antigamente, os pais não tinham tanto stress como os de hoje em dia têm. Não havia a dita crise europeia, os empregos eram para a vida e os finais do dia eram sossegados.


Quem não se lembra das secas absurdas que apanhávamos de vez em quando? Quem não se lembra de ir à baixa com a mãe e aquilo demorar uma tarde inteira e tudo feito com muita calma? Hoje em dia vai-se à baixa e tem de se ir aqui, mais acolá e mais ali... é tudo a correr! É sempre a escolher! Eu lembro-me de comprar os meus sapatos sempre na mesma sapataria, até ser adolescente!


E quem não se lembra de, em muitos casos, ter de ir ao vizinho para fazer um telefonema, porque nem telefone tinha?


E quem não se lembra de levar com o TV rural ao domingo de manhã e achar que os desenhos animados deviam era continuar? E no canal 2 não estava a dar nada? Um escândalo era o que era!


A verdade é que muitos miúdos já não sabem o que é passarem uma tarde sem fazerem nada ou quase nada. Se não estão a fazer nada, ligam a TV. Ou vão para o ATL (sim, melhor isso que ficarem em casa sozinhos ou com quem não sabe tratar deles – mas acho que percebes o que quero dizer). Estão e são hiper-estimulados! E tanto o são que acabam por não saber mais o que fazer quando não há nada para fazer. Até para comer há quem coloque o tablet à frente para ver um desenho animado... A sério, é mesmo mesmo preciso? Todos os dias?


Os miúdos não podem ser como eram antigamente, claro que não!

Por isso, o nosso papel passa, claramente, por ajudarmos os nossos little ones a gerirem todo esse stress de hiper oferta e informação mais do que a punir por desejarem o que lhes é oferecido e o que lhes aparece à frente dos olhos sem lhes ser pedido.

16 comentários:

  1. É mesmo !!
    até apetece dizer - coitados do míudos :)
    tanta oferta pode baralhar os pequenotes.

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    1. Ahahahha!
      O que sei é que devemos parar de dizer 'que já nao eram como antigamente', isso sim! E ajudá-los... é mais coitados dos pais... hehehe! Brincadeira ;)

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  2. Partilhei o teu post, espero que não te importes mas achei muito interessante e quis que mais pessoas tivessem acesso a ele. Obrigada

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  3. Por isso é que eu queria criar o meu no campo...

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    1. Pedindo desculpa pela intromissão mas vivo no que podemos considerar campo, os miudos vão para a escola a pé com os primos, vizinhos, o cão (alguns até da pré), a creche da minha filha a certa altura e contando com o berçário eram 14 crianças ao todos para 1 educadora e 5 auxiliares, ha comunicação, tempo, colaboração entre todos porém os estímulos chegam cá em força e lá limamos aqui e ali (a nós pais, claro). Qd um tablet lhe chegou às mãos nem foi preciso explicar q eram os dedos q tocavam e que o Mickey vivia lá dentro :) o carro do noddy à porta do supermercado faz uma alminha de 2 anos juntar dinheiro que apanha durante a semana p trocar por 1 euro para andar no fds e ir ao supermercado é sinonimo de 2 ou 3 gomas que tanto gosta. Ninguém lhe explicou. Eu pelo menos não. ..

      Porém sei que este descanso, o barulho só de quem passa na rua ou algum carro, as cigarras num verão bem quente, as vacas pastelonas a ruminar à beira da barragem fazem com que a minha pequena tenha outro tipo de vivências longe do sofá/pc/tablet/etc... mas nao lhe chegará so isto num futuro :)

      Beijinhos e desculpem

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  4. Essa frase (título do post) é dita vezes sem conta sobretudo no meio em que estou inserida profissionalmente, a docência. E de facto tens razão, os hiper-estímulos estão na base de tanta inquietação, da infinita curiosidade e consequente desintesse face a conteúdos a abordar pela primeira vez... parece que já chegam à escola a saber tudo ou com a premissa de que "eu já sabia" quando se calhar não sabiam não senhor; a não saber estar e a respeitar os outros; a aguardar pela sua vez... Tudo isto fruto, provavelmente, das múltiplas distrações conseguidas em casa (e não só) para que sem causar muito prejuízo (barulho ou aborrecimento) comam tudo, lavem os dentes, não amuam ou façam cenas. O pior de tudo, no meu entender, é quando os pais se tornam cúmplices das birras, zaragatas ou acontecimentos desadequados dos seus filhos e tomam partido defendendo-os, nunca punindo ou chamando à atenção. Por vezes considero uma pena hoje em dia muitas crianças não "terem medo" dos pais. Assim dito desta forma parece grosseiro "mas haviam as crianças de ter medo dos próprios pais?" isso era antigamente porque batiam, não explicavam, castigavam e não ouviam... mas, muito à nossa maneira, utópica talvez, mas sensata e educada era muito bom (para todos) que as crianças temessem os pais. E felizmente ainda há quem tema, ainda há quem respeite e ainda há quem saiba estar.

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    1. :) Percebo exactamente o que queres dizer, minha querida! UM beijinho!

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  5. Fizeste-me sorrir e relembrar a minha infância!

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  6. So cheguei ao teu blog ha 2 meses e por issoso hoje me dei conta deste topico quando os selecionaste como um dos teus 7 de 2012... e adorei le-lo (a serio, mas nao gosto sempre?!). Pois é, é k tenho andado a conversar com a minha mae sobre estas coisas de educar (como foi comigo e o meu irmao? Como sou eu com os meus filhos? Como é ela como avo?) e ela concluiu o seguinte:
    "Tu e o teu irmao nao eram faceis mas nao davam metade do trabalho k dao os teus!!!"
    Acho k a justificacao é exatamente isto k escreveste... e eu nunca tinha pensado nisso!
    Bjk :o) Margarida

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  7. Tb eu queria criar os meu filhos (e a mim propria) no campo, no meio da calma e da natureza! Mas isso nao me é possivel... :(
    Bjk :o) Margarida

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  8. Espectacular post.
    As coisas estão perante os nossos olhos mas é necessário que alguém as diga para soltarmos um: Ahhhh, é que é mesmo isso!

    Os tempos de hoje exige muitos de nós, como pais!

    Beijos

    p.s.- ansiosa pelo workshop no algarve. ;)

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  9. Olha Magda,
    O meu filho tem 3 anos e meio e tem poucos brinquedos (comparado com os miúdos de hoje que têm quartos de brinquedos, mas muito mais do que aqueles que eu tinha) não o coloco em frente ao tablet nem em frente ao smartphone (não joga ponto).
    Bolachas temos a "Maria" e o "Manel" (versão tipo maria torrada quadrada), as outras estão escondidas.
    Aquilo que le mais gosta de brincar além das bolas e da bicicleta (quando o tempo permite), são por incrível duas colheres que pau (da cozinha normalíssimas) que avó lhe deu pois passava a vida a roubar as da cozinha.
    Usas para fazer de bastão do Max "As aventuras do Max", para fazer de taco de bilhar, para fazer de faca à cinta como o Esteban das " Cidades de ouro", tudo saiu da sua imaginação sem que ninguém lhe disse-se o que fazer.
    Na passagem foi difícil pois na casa onde estava apareceu um menino (muito mais novo) com um Ipad e le sabia que eu tinha o nosso na minha mala e foi o diabo, pois o miúdo passou o tempo TODO a jogar e o meu filho sempre que se lembrava era birras umas atrás das outras....
    Tenho momentos que penso ser demasiado retrograda ou como já me rotularam uma mãe muito duro, mas por outro lado o Rodrigo come de tudo de faca e garfo desde os 2 anos, não tenho nódoas na roupa, vou ao supermercado com ele não se passa nada (as birras são feitas quando o pai vai tb..... mas são do género correr o supermercado todo com o pai atrás feito louco!!!!
    Este tempo exige demasiado de nós, mas o que mais me cansa é estarmos a fazer um esforço tremendo para deixar que o Rodrigo crie as suas próprias ideias (para brincar por agora), definir as regras (as da mesa são sagradas) e num passe de mágica o contexto deita por terra tanto tempo de investido.
    Vê esta mensagem como um desabafo à sociedade e ao tempo alucinante que vivemos.
    Um abraço,
    Isabel

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  10. Magda,
    Tenho um menino de 3 anos e meio, tem poucos brinquedos quando comparado com os miúdos de hoje que têm quartos de brinquedos (mas muito mais do que eu tinha com a idade dele).
    O brinquedo dele favorito são duas colheres de pau de cozinha que ele utiliza para:
    - Fazer de bastão como o Max ("As aventuras do Max"), coloca nas costas entre a pele e a roupa;
    - Fazer de taco de bilhar;
    - Fazer de faca como o Estebam ("Cidades de ouro), que coloca à cinta por dentro das calças.
    Só temos dois tipos de bolachas (as outras estão escondidas) bolachas Maria e "Manel" (tipo maria torrada mas rectangular), come de tudo em casa e na escola, não tenho nódoas na roupa e os dentes já os sabe escovar (não muito bem mas vai a caminho), come de faca e garfo desde os 2 anos.
    Birras no supermercado só quando vai o pai, pois acha que com o pai é para correr o supermercado todo com o carrinho atrás derrubando tudo e todos com o pai em estado de pré-loucura atrás dele......
    Não joga (ponto) nem no smartphone nem no tablet, a minha passagem de ano foi uma dor de cabeça, pois na casa onde estava apareceu um menino (mais novo que o Rodrigo) com um Ipad e esteve a jogar o tempo TODO, e sempre que o Rodrigo se lembrava era birra e choro porque sabia que o nosso estava na minha mala.
    Por vezes fico a pensar se não sou demasiado retrograda ou uma mãe demasiado dura (como já me rotularam)....
    Considere este testemunho como um desabafo de quem faz um enorme esforço para criar regras e hábitos e depois o meio (sociedade, tempo, whatever) vem e destrói em menos de um passe de mágica.
    Um abraço,
    Isabel

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  11. Percebo perfeitamente este post...não comparo nimguem ao meu filho a não ser eu mesma...e vejo tantas diferenças (apesar de não ser assim ''tão antiga'')...LOL!
    Para mim criar os meu filhos no campo estaria completamente fora de hipotese... (o excesso de calma poe me stressada e fico cheia de alergias nos olhos e nariz).
    Eu pp sou uma mãe ''da actualidade''...vejo me rendida a um ipad perante uma birra num restaurante (quando no ''antigamente'' jurava a pés juntos q filhos meus jamais fariam isso... entre outros exemplos).
    Tento transmitir e educar de forma muito semelhante ao que a minha mãe e pai fizeram comigo (apesar de estar a milhas de ser igual e já não a ter cá para me ajudar e corrigir sempre q necessário...e q falta me faz!).
    Sinto me muitas vezes baralhada com tanto excesso de informação sobre ''como educar''...o que será deles (miudos) com tanto excesso de estimulos a toda a hora...

    Aida Ribeiro

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Obrigada por leres e por comentares!
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