Profissão: Mãe a tempo inteiro

27.7.12





Quando Portugal é tido como um dos países onde a maior parte das mulheres com filhos trabalha a tempo inteiro , a realidade das mães a tempo inteiro (daqui em diante mencionadas como MATI) muda de panorama com relação àquilo que era sê-lo, há uns anos atrás.

No passado, as MATI eram-no porque desejavam sê-lo. E eram-no a 100%, sem conjugarem trabalhos paralelos. As mulheres que hoje estão na casa dos 60 foram mães a tempo inteiro por vários motivos. Ou porque tinham uma grande família e ficavam em casa a organizar as tarefas domésticas e a conciliar a educação (o mais velho começava a trabalhar cedo e o outro ia logo a seguir); ou porque o marido tinha um vencimento que a permitia dedicar-se aos filhos e à casa; ou ainda porque era (em alguns meios) mal visto que a mulher trabalhasse fora de casa.

Hoje, a cena muda de figura e a verdade é que há muitos poucos casos como os que acima citei.

A Ana, do blogue Anita de Tulp sorri e suspira quando lhe pergunto porque é que uma mãe a tempo inteiro não é nenhuma dondoca. A verdade é que, ao contrário dos outros trabalhos, neste ninguém te explica o que é que se espera de ti. E mais: só sabes se atingiste os resultados daqui a uns 30 anos.

Todas as mães entrevistas sabem que em casa há sempre, mas sempre coisas a serem feitas. Seja a lida doméstica, tratar e brincar com os miúdos, levá-los aqui e acolá, o serviço não tem fim. Não há um almoço entre colegas de trabalho. Não há dia de descanso nem tão pouco um vencimento no final do mês ou um subsídio de Natal ou de férias. Muito pelo contrário, o desafio é mesmo conciliar o salário de uma pessoa, que normalmente já é magro, pelos 3 ou 4 membros do agregado. Maior jogo de cintura tem a Catarina, do blogue Dias de Uma Princesa que, com dois filhos e  sendo mãe solteira, equilbra todos os meses as contas. Valhe-lhe o apoio do pai do filho mais velho e da mãe.

Quase todas as mulheres com quem falei são mães a tempo inteiro por força das circunstâncias. Em quase todos os casos, quis a crise que ficassem sem emprego a meio da gravidez ou já depois dos filhos terem nascido. E quando inicialmente algumas entraram em pânico, todas conseguiram ver que dali também podia vir coisas boas.  Quem também o diz é a algarvia Ana, autora do blog MixingDreams de 39 anos. Mãe de um rapagão de 9 anos, deixou de ser administrativa após 18 anos de dedicação e neste momento é considerada ou demasiado ‘velha’ para trabalhar, ou com um CV ‘demasiado bom’.

E que coisas boas são essas que aparecem quando se passa a ser MATI por força das circunstâncias?
É unânime: serem as primeiras a escutarem as primeiras palavras dos rebentos, a darem a mão nos primeiros passos e a acompanharem o crescimento das pessoas mais importantes da vida delas. Estão lá para ajudar, incentivar ou apenas assistir e escutar. Tenham eles 2 anos ou 10 ou até mais.

A autora do blogue Motherhood is a Full Time Job, licenciada em inglês/alemão exerce a profissão de MATI e tem um negócio de venda de artesanato online. A função de MATI vai provavelmente terminar agora, porque espera ser colocada enquanto professora. O mesmo acontece com a Filipa, 29 anos e autora do blog MiniFeijão. Mas esta é uma falsa MATI. E não vale a pena dizer o contrário porque ela também admite. É sim uma mulher multi-faceta que conjuga o papel de MATI com o de designer. E também é coordenadora de uma empresa de remodelação de imóveis e gestão de obra e tem uma empresa de venda de sapatinhos para bebé. E ainda está a tirar o Doutoramento. Não faço ideia como é que tem tempo para isto tudo. E ela também não! É claro que ter uma empresa dá-lhe alguma flexibilidade e permite-lhe levar a pequena para o escritório, privilégio pouco acessível à maior parte de nós. Mas o reverso da medalha está na cara. O tempo que tem para si própria é pouco ou nenhum. E a maior parte dos dias trabalha noite fora para fazer aquilo que não ficou feito durante o dia.
Aliás, este é um ponto em comum em quase todas as entrevistadas. A falta de tempo próprio, a solidão de passarem os dias sem adultos ‘interessantes’. Em Setembro a filha vai frequentar a escola a tempo inteiro, o que vai fazer com que tenha mais tempo para dedicar-se aos negócios e a si. À questão ‘voltaria a repetir a formula de ser MATI?’ a Filipa não sabe exactamente o que responder. Sabe que isso implica uma enorme disponibilidade e uma brutal conciliação de tudo e mais alguma coisa. Mas é muito possível que o volte a fazer.

A Carla, do blog As minhas gotinhas de água é das poucas MATI à moda antiga. Por opção e com uma ajuda das circunstâncias. Uma proposta de trabalho feita ao marido e a família mudou-se com ele. Para um país diferente, para um continente novo. E a Carla, profissional liberal, largou tudo. Hoje dedica-se a 100% aos dois filhos e à família. Diz ela que não há emprego que proporcione tamanha realização e a felicidade de aprender a amar todos os dias, amando, simplesmente. E não vê nenhuma desvantagens neste papel. Deseja ser MATI para sempre mas se a realidade do seu dia-a-dia mudar, tem a certeza que todos se adaptarão facilmente. A única coisa que vai procurar que aconteça é trabalhar durante as horas em que os miúdos estão na escola para poder estar com eles depois disso.

E sim, ainda existe um preconceito em relação às MATI. A Anita de Tulp fala mesmo no ar de descrédito que sente ou mesmo de pena e gozo quando diz o que faz na vida. Mas também já percebeu que esse sentimento desvanece quanto mais segura e feliz se sente nesta opção. Dondocar, como diz, não faz parte do seu dia a dia. Aliás, dondocar é o que mais queria. Talvez venha a ter mais tempo caso a situação profissional mude de figura. Ou não. Até lá vai pesquisando e experimentando como ser melhor mãe sem o stress de dividir as atenções com um outro trabalho fora de casa.

19 comentários:

  1. Mas que lindo Magda! Muitos Parabéns! Agora vou ali "cuscar" os blogues das minhas parceiras.

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  2. Boa! Gostei muito! Vou fazer como a Anita de tulp.. :)

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  3. Adorei!!! Como não podia deixar de ser....parabéns Magda!!!!

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  4. Olá :) tb gostei muito mas tenho 29!! Nao tenho 39 :)) beijinho!

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    1. ooopsss! Rectificação feita, Fi! Um beijinho!

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  5. Não sou MATI mas quase! Só não estou com a minha filha as manhãs de terça, quarta e quinta e adorooooooooooooo! Vivi com ela todas as primeiras vezes; a primeira palavra, os primeiros passinhos, o primeiro xixi pelas pernas abaixo... Não sei como vou fazer quando ela for para o colégio! Vou dar em doida sem ela em casa a chamar pr mim, a pedir a minha atenção. Parabéns pela post, adorei! Bjios

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    1. Olá Vanessa! Vai tudo correr bem, vais ver. Um beijinho e obrigada pelo comentário!!

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  6. Adorei este artigo! Eu Sou uma MATI não por opção mas porque as circunstâncias assim o exigem. De todos os trabalhos que já tive este é o mais duro e violento, pois como dizes e bem não temos tempo para nós, ou temos pouco e isso cansa e muito e a falta da conversa da treta com as colegas é muita. Mas por outro lado estou a ver os meus amores a crescerem e não tem nada mas nada que pague isso, e os sorrisos, a alegria deles os beijinhos enfim compensam em grande escala tudo o resto.
    Beijinho e parabéns!

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  7. Parabéns Magda!

    Excelente matéria.
    Adorei e senti-me orgulhosa de fazer parte do grupinho.
    Obrigado

    P.S.: O blog é Mixing Dreams (o meu nick é que é Candydreams)

    Bom Fim de Semana :)

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  8. O que eu queria mesmo era ser MATI mas com empregada em casa! heheheheh

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  9. Uma salva de palmas para a Kiki! É que era memso isso... imagino-me feliz como MATI, apesar de gostar imenso daquilo que faço como profissão, mas o belo do "housework" dá--me preguiiiiiiça!

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  10. Só tu Magda que excelente artigo :)
    Sou uma falsa MATI...mas bem sei o que as pessoas pensam qd digo que sou uma...
    ah coitada...vejo nas suas caras...
    Ainda assim ser uma falsa MATI exige um esforço de cintura que ao longo destes 6 anos eu ainda n consegui controlar...pode ser que com o tempo e a partilha com outras MATIS ajude...
    Bjs a todas as Mães :)

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  11. Adorei! Acho q não tinha perfil para ser mati mas sou uma grande admiradora de quem o consegue ser! Estou a acabar a minha licença (a chegar ao fim dos 5 meses...) e adorei a experiência de estar tanto tempo com o Baby e com os meus outros 2 mais velhos. Tenho a grande vantagem de trabalhar ao lado (literalmente) de casa e vou continuar a acompanhar tudo de perto... Mas já estou a precisar de mudar de ares!! Bjs

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  12. Eu sou uma "Carla" há seis anos e muito feliz com a opção que tomei: uma profissional liberal durante 15 anos que deixou profissão para ser feliz a cuidar do seu filho e familia. Sem arrependimento e com momentos muito felizes. Sou mãe a tempo inteiro não por circunstancias da vida mas por opção.
    Bj
    http://dadinhahistorias.blogspot.pt/
    Dadinha

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  13. Olá!
    Gostei muito deste post. Também sou MATI, por opção, mas com alguma dificuldade em me adaptar e assumir este papel (eu ainda me custa o facto da minha vida profissional não ter dado certo), mas a determinada altura reparámos que não compensava trabalhar fora de casa... Não me arrependo, mas tem dias que isto custa levar. Acho que quando assumir a parte das limpezas, do tratar da roupa e do cozinhar todos os dias, como parte integrante da minha profissão atual me passa :) Também era dondoca se pudesse :)
    Vou espreitar os outros blogs, é sempre bom sabermos de quem passa por o mesmo que nós.

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  14. Hoje estava num jantar com amigos e quando me fizeram a pergunta: o que fazes agora? respondi: sou mãe. Ao que um deles (que não tem filhos) me respondeu: Só!!!! Só quem não tem filhos, não compreende! Essa ideia incumbida na nossa sociedade de que todas as mulheres têm de ser super mulheres aflige-me. eu estive durante 2 anos a trabalhar numa cidade diferente de onde moro com dois filhos, num trabalho sem horários, onde via os meus filhos uma hora ao final do dia...Não os via, não os seguia e optei por abandonar essa vida.
    O ser mãe, hoje em dia é encarado de ânimo leve, como se fosse um acrescento, um pequeno pormenor... Para mim, que tenho 2 filhotes pequeninos, que acho merecerem toda a minha atenção, apreço e consideração, acho ser a maior prova de amor que lhes posso dar nestes primeiros anos de vida. Podia estar a trabalhar? Sim... Mas quero segui-los, vê-los, conviver efectivamente com eles e não apenas chegar a casa e cumprir uma série de tarefas com eles até à hora de deitar. Eu QUERO viver a infância deles. Não me sinto mais burra, menos interessante ou que esteja a perder algo por lhes estar a oferecer a minha presença a tempo inteiro. Irrita-me sobejamente que hajam pessoas que pensem que ser mãe a tempo inteiro é uma tarefa menor... Que missão poderá ser maior que apoiar os meus filhos? Deixo de ser menos por isso? Enfim, confesso que fiquei ofendida por haverem pessoas que consideram ser mãe uma missão menor...

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