Isto não é para brincadeiras!

4.6.12





Quando lidas com uma criança, coloca toda a tua sabedoria de lado, e senta-te no chão.


Austin O’Malley 1915


 A propósito do dia Mundial da Criança, os dois mais importantes pediatras portugueses – Mário Cordeiro e Eduardo Sá - referiram-se da importância do brincar, na vida das crianças, aqui e aqui. E isso é coisa que nós já sabemos há muito tempo, certo?, e que vale sempre ser lembrada!
 


Admito: muitas vezes tenho pouca paciência para brincar. Gosto mais de fazer colagens, conversar ou passear. Mas admito também que, à medida que vou investindo mais nesta coisa de brincar, mais vou gostando... Já lá diz o povo ‘O comer e o coçar vai do começar’.

 Acho que é igual em quase todo o lado. Quer tenha tido um bom ou um mau dia, aquilo que a minha filha espera que eu faça, assim que estou com ela, é que brinque. Mesmo que a última coisa que me apeteça naquele momento seja, exactamente isso: brincar! Mesmo depois de ter dado o meu melhor durante o dia, mesmo depois de ter despachado uma série de assuntos, chegar a casa significa, antes de tudo o mais...? Isso mesmo: brincadeira! Mas a verdade é que muitas vezes, com o cansaço do dia e com a desculpa que tenho de adiantar o jantar, vou fingindo que estou a brincar. E brincar é uma coisa muito séria. Só que, para mim, tem dias em que soa a uma grandessíssima seca... A ti, não? :)
 


Por vezes fico frustrada por a minha filha não conseguir pintar dentro do desenho. Outras vezes fico frustrada por ela não querer brincar de acordo com as regras de um determinado jogo. Mas, no fundo, no fundo, quem sou eu para pensar assim quando eu própria, tantas vezes, não consigo concentrar-me numa simples brincadeira com ela?


 Brincar é a forma mais importante e mais completa que uma criança tem para comunicar, para experimentar e para aprender. E é tão verdade que partilho aqui um exemplo. Durante umas semanas, a minha filha recusava-se a falar do que se passava na escola. Estava na cara que não estava a gostar da experiência mas concretamente eu não a conseguia ajudar porque ela não abria o jogo. Ao falar com a educadora, o feedback era sempre positivo. Em casa e nas viagens para e da escola, sentia a miúda tensa, triste. Até que decidi brincar com a situação. E como? Brincar às escolas. Ela seria quem quisesse e eu seria quem ela quisesse. E foi nessa altura que, ao fim de uns 5 ou 6 dias, a minha miss começou a explicar, através do ‘vamos brincar à escola’, aquilo que a fazia menos feliz.
 


A Laura Markham fala do ‘Special Time’ e foi exactamente através deste ‘método’ ou ideia ou dica (como lhe queiras chamar) que passei a gostar muito mais de brincar.
O ‘Special Time’ consiste em 15 minutos de brincadeira onde é a criança quem manda. Se ela quiser calçar os meus sapatos, se ela quiser alterar as regras de um jogo, se ela quiser saltar em cima dos sofás, ela pode. São 15 minutos em que eu e ela estamos juntas a brincar e é ela quem comanda. Não há regras nem excepções (bom, admito que se houvesse uma ou outra situação de risco físico eminente, o jogo ficaria anulado ou teria de ser alterado. Há uma idade para tudo. ).


Adiante! O que eu quero dizer é que se estivermos a fazer uma montagem de legos, ela é que vai dizer como é que se faz e eu só tenho de me controlar para não lhe dar pistas. She’s the boss not me!
E quando o cronómetro tocar, o ‘Special Time’ acabou (não tens de usar cronómetro, lógico!) Podemos continuar a brincar mas brincamos num tom diferente. Até porque também é importante que ela aprenda a brincar sozinha, certo?
 


E o que é que ganhamos com o ‘Special Time’?
   Maior e melhor vinculação. Naqueles 15 minutos não existe ninguém mais importante. Naquele momento, a nossa ligação é exclusiva!
   Menos stress. As crianças são muito físicas. Permitindo que brinquem e que gastem as energias, ficam muito menos tensas. As más energias saem e os putos ficam bem, sossegados!
   Fazemos aquilo que temos de fazer com elas e que é brincar!
   Preenchemos a necessidade que têm de atenção parental exclusiva. Estiveram o dia inteiro sem nós! Vamos celebrar o encontro!
  Queres um exemplo de como é tão importante esta coisa do brincar?
Há uns meses atrás, vinha com a minha little one para casa, de carro. E vinha a dizer-lhe ‘Assim que chegarmos a casa, vamos brincar. Queres brincar a quê? Desenhos, ok, então vamos brincar a fazer desenhos!’
E eu cheguei a casa, ajudei-a a tirar o casaco e disse que ia só pousar os sacos. Só que pousei os sacos, pus o jantar ao lume, arrumei a loiça do pequeno almoço, falei com a minha mãe ao telefone e, quando cheguei à sala para finalmente brincar, levei com uma sapatada. E, ao invés de ficar chateada e de lhe dar um valente sermão, percebi que a minha filha estava cheia de razão. Eu tinha prometido que ia brincar com ela e a verdade é que tinha estado a fazer outra coisa qualquer... E foi a forma que ela teve de me dizer que não estava contente.
Perguntei-lhe ‘Estás chateada comigo?’ e obtive um consentimento.  E porquê? Ela não me sabia dizer... sabia que estava triste e frustrada mas possivelmente não se lembrava. E eu perguntei-lhe ‘foi porque eu disse que ia brincar contigo e só venho agora?’. Ela acenou que sim. Pedi-lhe desculpas e fomos brincar. Se calhar, algumas de nós tinham castigado, dado outra sapatada ou até um sermão.
 


Da próxima vez, procura saber se não há ali alguma frustração e alguma necessidade de brincadeira não preenchida.


 E boas brincadeiras!


Nota: O Eduardo Sá é psicólogo e não pediatra! Obrigada Sylvia, pela correcção!

14 comentários:

  1. O texto está tão interessante como sempre, e o que mais sentido me fez foi a questão de não faltarmos com a palavra, eu quando prometo alguma coisa, mesmo que depois tenha grandes dificuldades em cumprir por algum imprevisto cumpro, porque gosto de passar a mensagem que a nossa palavra é muito importante e não podemos falhar. Brincar é das tarefas mais importante para uma criança e para os pais, por aqui fazemos muitas vezes e como temos mais do que um filho, crio brincadeiras e formas de todos entrarem e partilharem esses momentos.

    Beijinhos

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    1. POis é, Mamâ Petra! O prometido é devido já lá diz a canção! E então quando diz respeito a brincar, é mesmo! :)
      Fico tãooooo contente que tenhas gostado! :) <3 [adorava que os corações ficassem mas acho que não ficam, pois não ?]

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  2. gostei muito,muito interessante mesmo.
    é bem verdade e esses 15 minutos não nos alteram nada e a elas ou na nossa relação mãe/filha podem alterar muito!
    é bom não esquecer isso,é muito bom!

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    1. Olá Daniela,
      15 minutos a day is how much a children needs to play [rima manhosa!!! ]
      Yep, acho que sim, acho que é este o segredo!

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  3. Ora aqui está um assunto bem sério e pelo qual tenho um enorme respeito!
    eu ADORO brincar, mesmo! O rapaz tem praticamente 15 meses e as nossas brincadeiras ainda não incluem faz de conta, nem jogos com regras ou personagens imaginadas, mas incluem perseguições casa fora comigo de gatas a ameaçar come-lo, cócegas, saltos, chutar bolas e palhaçadas que tais. Adoro, adoro, adoro! sou palhaça por natureza e imagino que os anos que aí vêm só vão acentuar esse meu lado. E, ao contrário da maioria dos pais, anseio pelas plasticinas! lololol

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    1. E eu não sei que tu gostas disso? Nota-se!
      E sim, vê-se que tu tens uma vontade louca de comer o teu filho! ahahah!
      Anda a estagio lá a casa - temos umas plasticinas que, dizem, são comestíveis [eu cá experimentei e blagh! - é seguro, não voltam a levar aquilo à boca]!

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  4. Parabéns pelo post - ADOREI mesmo! É mesmo muito importante brincar, lá em casa depois do jantar os jogos são sagrados, mas não conhecia o tempo dos 15 minutos para serem eles a comandar. Acho que vou começar a fazer ;) Beijinhos

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    1. É gira esta ideia, não é Baby Me? Depois conta como está a ser, combinado?

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  5. Belíssimo texto! Eu própria escrevi sobre o tema a propósito do Dia da Criança. Não conhecia o método "Special Time", pelo menos não com este nome ;)Tal como tu também não tenho muita paciência para brincar, dando sempre preferência aos trabalhos manuais ou à culinária em conjunto mas desta forma torna a coisa muito mais fácil pois são eles que mandam! Muito obrigada pela partilha. Vou por mais vezes em prática!! :)

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    1. Olá Sofia, já fui ao teu cantinho acabado de nascer! Está muito giro! Pois, acho que somos parecidas e esta coisa do Special Time é brutal como ideia! Conta como está a ser aí por casa! E no infantário, que actividades especiais é que têm?
      Bjinhos!

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    2. Que bom que gostaste!! É tão importante o feedback (principalmente de quem sabe do que fala) que isto de ser blogger tem muito que se lhe diga! Hehehe!
      Vou dando novidades. Beijinhos

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  6. Adorei este texto. Sempre que chego a casa, por mais cansada que esteja, os primeiros 10/15 minutos são exclusivamente para o Pedro. E brincar também a nós nos faz bem. Mas gostei especialmente deste conceito de os deixar comandar, apesar de, por agora, ainda não ser viável, pois caso contrário teria diversos objectos dentro da sanita, da máquina de lavar roupa, utensílios de cozinha perigosos pela casa fora, enfim, tudo o que o pequeno que ainda não aprendeu a parar (não é a andar, é mesmo a parar)se lembrasse...

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    1. hehehe!
      Amo quando dizes 'também a nós nos faz bem!' É que faz MESMO!!!!
      Boas brincadeiras com o teu Pedro! Daqui a nada está ele a comandar :)

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  7. Muitos parabéns, está fantástico o texto! Adorei, existem pequenas coisas que nos passam ao lado nosso dia a dia e às vezes com pequenas leituras ou com pequenas chamadas de atenção, conseguimos perceber que nao estamos agir da melhor forma! Gostei mesmo muito de ler, fez-me ter conciêcnia que pequenos minutos (por mais escassos que sejam) e pequenas atitudes podem ser importantissimas paraa educação das crianças!Obrigada por nos proporcionares este tipo de apredizagem!

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Obrigada por leres e por comentares!
Todos os comentários são bem-vindos excepto os que 'berram alto'...Esses são, naturalmente, eliminados!

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