Parentalidade Positiva - I

10.2.12


Esta coisa da parentalidade positiva dá horas de conversa...

E vai daí, decidi colocar aqui um post sobre o que é que isto é, para que possamos desmistificar a ideia que a parentalidade positiva é uma parentalidade permissiva.

 Vou fazê-lo por etapas. Tenho a noção que textos demasiado longos podem tirar-te a vontade de ler.

Como é que eu despertei para este tema?

Quando tomei a decisão de ser mãe fui invadida por um grande medo. Medo de não ser capaz. É um sentimento natural  -  afinal de contas educar é uma grande responsabilidade. Ao mesmo tempo percebi que ter medo bloqueia-me na tomada de decisões e faz com que tudo seja menos claro. E então decidi começar a ler - ler muito sobre estes assuntos e perceber quais são as diferentes perspectivas de diferentes autores. E ler o quê? Leio livros de pediatras, psicanalistas infantis, e neurocientistas, de psicólogos e até livros ‘pop’. O objectivo é alargar os conhecimentos e continuar flexível.

 Nessa altura descobri uma coisa chamada haptonomia. A haptonomia é uma forma de comunicação in-utero com o bebé. In-útero, dizes tu? Yep, in-útero, com a mão por cima da barriga (não te ponhas já com coisas). Como esta técnica não era praticada em Portugal (e ao que parece continua a não ser), lá fui eu pesquisar e ler tudo o que se dizia. Trocando a coisa por miúdos, a haptonomia faz com que a criança e os pais criem uma ligação que antecede o nascimento. É feita através do toque e da palavra. Fala-se muito, toca-se muito na barriga, brinca-se com a criança e ela mexe-se e responde conforme o ritmo que damos. Brutal. É uma comunicação que vamos ‘afinando’ dia-a-dia. Começámos no 5º mês de gravidez. Porquê? Primeiro porque passei a sentir o meu bebé. Depois, porque é nesta altura que a audição se desenvolve. E depois porque antes, a haptonomia, dizem, não faz muito sentido.

 O certo é que quando a Miss C. nasceu e como a nossa relação com ela já existia,  sentímos que estava ali uma pessoa e não um bebé. Uma pessoazinha. E sabemos que ela sentia isso também porque nasceu mais espevitada e com uma forma de olhar e de se segurar que é muito própria em crianças cujos pais praticam este método. É um olhar e uma postura atenta, de quem está bem acordada para a vida. E isso muda a relação e a forma como agimos com ela.

 O facto de eu saber que a minha filha é uma pessoa por inteiro permitiu-me ver para além do bebé que tinha à minha frente. Permitiu-me tomar consciência que todos temos uma natureza e que eu devia seguir o ‘swing’ dessa natureza porque é assim que a minha filha é. Aceitar quem ela é, ampará-la no seu crescimento - esse é o meu foco.

 E como a respeito, tenho uma forma de educar diferente da tradicinal. É curioso, mas a minha mãe acha que eu sou muito boazinha. E que essa coisa de explicar tudo à minha filha não vale grande coisa porque até há pouco tempo ela não percebia metade – nem falava, tão pouco. Pois é, a verdade é que os miúdos percebem tudo, desde o momento que nascem. Percebem porque ouvem mais do que nós. Ouvem o tom da nossa voz, sentem-nos nervosos ou felizes e isso é comunicar e é chegar até mais longe do que nós, adultos, chegamos. Isto eu sei e garanto-te – eles percebem, mesmo!

A maior parte das pessoas que eu conheço teve uma educação mais autoritária. Os pais tinham aquela filosofia do ‘quero, posso e mando’ e do ‘olha para o que eu digo mas não olhes para o que eu faço’. A maior parte de nós apanhou uma palmada. Eu apanhei. E não me fez mal. E uma ou outra vez fui castigada pelos meus pais por me ter portado mal ainda que fosse raro calcar a linha. A verdade é que estou aqui, sem grandes traumas. Acredito que tenho valores bons, que sou boa rapariga e que os meus pais fizeram o melhor que sabiam e por amor.

A questão é então: Porque é que eu decidi abraçar esta causa da parentalidade positiva? Porque acredito que posso fazer diferente. Porque respeito a minha filha e porque a considero uma pessoa inteira. E não a consigo ver de outra forma. Porque não acredito que uma palmada ensine mais do que uma boa explicação feita duas ou três ou quatro vezes. Porque acredito que os pais é que são os adultos e aqueles que têm de gerir as emoções, como agora se diz. Porque acredito que ‘amor com amor se paga’ e ‘respeito com respeito se paga’.

Por isso, o primeiro grande passo é mudar a forma como olhamos para a educação que damos aos pequenos e perceber o que é que queremos. Claro que queres filhos felizes, com saúde e que respeitem os outros e se respeitem a si próprios. Então se queres isso, age por influência. Mune-te de uma boa dose de paciência e, acima de tudo, olha para eles como pessoazinhas. Este é mesmo o primeiro grande passo. Pelo menos, e para mim, foi.

No próximo post vou clarificar, através de exemplos, o que é uma educação autoritária, permissiva e positiva. Vou falar-te de exemplos e estratégias que uso e que leio. Vou contar-te que por vezes falho, por vezes até sou permissiva, por vezes tenho muito medo de ser autoritária mas lá está, emendo a mão. Porque isto da educação é mesmo uma viagem e, como qualquer viagem, às vezes enganamo-nos na estrada e temos de fazer marcha atrás. É assim comigo.

E eu fico contente por aprender todos os dias e de partilhar isto contigo. Porque se passas por aqui é porque estes temas fazem sentido e te questionas sobre aquilo que podes fazer melhor, todos os dias, pelos teus filhos J, certo? E é isso que também me dá vontade de continuar!

8 comentários:

  1. Adorei o texto e embora acredite nisto de uma maneira intuitiva desconhecia que já havia uma "ciência" à cerca do tema.

    Beijinho!

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  2. @Só sedas - não sei se será uma ciência ou não mas isso não tem muita importância. O que importa para mim é que se chegue lá, passo a passo.
    E tu, passa a palavra, também! Este tema vai continuar e tenho a certeza que vais gostar de ler mais. Obrigada pela partilha e obrigada por leres ;)

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  3. "Os miúdos percebem tudo desde o momento que nascem"? Os miúdos percebem tudo antes mesmo de nascerem!

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  4. Gosto, identifico-me e também eu quero fugir da educação do "porque sim" "porque eu estou a mandar" e "porque eu é que sei"! E que livros aconselhas?

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  5. Adorei...passo porque tenho sempre muitas duvidas no meio das minhas certezas que é procurer sempre educar-me a mim para o educar bem.

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  6. Adorei...passo muito por aqui porque no meio das minhas certezas levantam-se muitas duvidas e preocupo-me em educar-me e aprender para o educar e ensinar. É uma viagem fantástica.
    Obrigada.

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Obrigada por leres e por comentares!
Todos os comentários são bem-vindos excepto os que 'berram alto'...Esses são, naturalmente, eliminados!

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