Lobo mau

18.2.12
Não há lobos maus - só lobos com fome

Assim que acordou, a minha filha, quase 3 anos, diz*:

 - Mamã, o lobo está aqui no meu quarto. O lobo é mau!
- Mau como?
- Ele ferra, mamã! E ele está na floresta com o Pedro e come o pato do Pedro. Isso não está bem!
- Ele é mau porque come o pato do Pedro?
- Sim, é! Muito mau!
- Isso quer dizer que se lhe dermos de comer, ele deixa de ter fome e já não ferra nem come o pato do Pedro?
- Sim!
- E o que é que podemos fazer, então?
- Dar-lhe papinha. Assim ele já não é mau.
- E o que te apetece fazer de comer?
- Uma pizaaaaa!
- E depois colocamos um prato lá fora? Tu não gostas que o lobo entre em casa, nem no teu quarto, por isso todas as noites podemos deixar comida lá fora e ele fica feliz e de barriga cheia. O que te parece?
- (Acena que sim) E assim ele já não ferra e passa a ser um lobo bonzito!
- E porque é que ele não vai ferrar e vai ser bonzito?
- Porque já não vai ter fome!                                   

Hoje de tarde tive mesmo a noção que esta conversa ajudou-me a ensinar à minha filha, através da reflexão, que se o lobo, tal como nós, têm comportamentos menos bons, é porque há um motivo.

O lobo só é mau porque precisa de alimento. É tal e qual gente grande e pequena.

Quando a minha filha fica chata, normalmente é porque está a ficar com sono.

Quando amua, é porque gostava de fazer alguma coisa e aquele não é o momento.

Quando fica irritada e bate com as canetas na mesa, por exemplo, é porque não consegue/sabe fazer alguma coisa.

Ou quando se põe a fazer barulhos esquisitos com a boca, é porque tem vergonha e está, ao mesmo tempo, excitada com o que está a acontecer.

Isso eu sei, estou constantemente atenta aos sinais que ela envia para saber que não é má-educação, que não é mau feitio, que não é maldade.

Ao ter tido esta conversa com ela estou, aos poucos e sem lhe dizer directamente as coisas, a ajudá-la a ver para lá da primeira imagem. Dá trabalho, é preciso foco. Ao mesmo tempo, deixar-me levar pelo ritmo e pela imaginação dela (até porque, como podes imaginar, o Pedro, o lobo, o pato e o gato mais o Peter Pan que vivem cá em casa, são convidados que eu não vejo mas que existem!) fazem com que eu própria treine a minha vontade em dar-lhe as respostas para que ela chegue mais depressa à conclusão. Simultaneamente estou a treinar (sim, isto treina-se) e a lembrar-me que, por trás de um comportamento menos adequado ou menos fácil da minha filha está sempre uma necessidade.

Dá trabalho? Dá!

É difícil? Nada! Basta estares atenta!

*Esta é a história do Pedro e do lobo, do Prokofiev e que é diferente da nossa história do Pedro e do lobo.

2 comentários:

  1. Que bom este post!
    Eu tento fazer o mesmo com a minha pequena.. sim, dá trabalho, mas ficamos com a sensação de que a tarefa foi cumprida e que fizemos o que estava ao nosso alcance para que se torne num ser humano lindo. ;)
    Obrigada!

    ResponderEliminar

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