Esta coisa da parentalidade positiva dá horas de conversa...
E vai daí, decidi colocar aqui um post sobre o que
é que isto é, para que possamos desmistificar a ideia que a parentalidade
positiva é uma parentalidade permissiva.
Vou fazê-lo por etapas. Tenho a noção que textos
demasiado longos podem tirar-te a vontade de ler.
Como é que
eu despertei para este tema?
Quando tomei a decisão de ser mãe fui invadida por
um grande medo. Medo de não ser capaz. É um sentimento natural - afinal
de contas educar é uma grande responsabilidade. Ao mesmo tempo percebi que ter
medo bloqueia-me na tomada de decisões e faz com que tudo seja menos claro. E
então decidi começar a ler - ler muito sobre estes assuntos e perceber quais
são as diferentes perspectivas de diferentes autores. E ler o quê? Leio livros
de pediatras, psicanalistas infantis, e neurocientistas, de psicólogos e até
livros ‘pop’. O objectivo é alargar os conhecimentos e continuar flexível.
Nessa altura descobri uma coisa chamada haptonomia. A haptonomia é uma forma de
comunicação in-utero com o bebé. In-útero, dizes tu? Yep, in-útero, com a mão
por cima da barriga (não te ponhas já com coisas). Como esta técnica não era
praticada em Portugal (e ao que parece continua a não ser), lá fui eu pesquisar
e ler tudo o que se dizia. Trocando a coisa por miúdos, a haptonomia faz com
que a criança e os pais criem uma ligação que antecede o nascimento. É feita
através do toque e da palavra. Fala-se muito, toca-se muito na barriga,
brinca-se com a criança e ela mexe-se e responde conforme o ritmo que damos.
Brutal. É uma comunicação que vamos ‘afinando’ dia-a-dia. Começámos no 5º mês
de gravidez. Porquê? Primeiro porque passei a sentir o meu bebé. Depois, porque
é nesta altura que a audição se desenvolve. E depois porque antes, a
haptonomia, dizem, não faz muito sentido.
O certo é que quando a Miss C. nasceu e como a nossa
relação com ela já existia, sentímos que
estava ali uma pessoa e não um bebé. Uma pessoazinha. E sabemos que ela sentia
isso também porque nasceu mais espevitada e com uma forma de olhar e de se
segurar que é muito própria em crianças cujos pais praticam este método. É um
olhar e uma postura atenta, de quem está bem acordada para a vida. E isso muda
a relação e a forma como agimos com ela.
O facto de eu saber que a minha filha é uma pessoa
por inteiro permitiu-me ver para além do bebé que tinha à minha frente.
Permitiu-me tomar consciência que todos temos uma natureza e que eu devia
seguir o ‘swing’ dessa natureza porque é assim que a minha filha é. Aceitar
quem ela é, ampará-la no seu crescimento - esse é o meu foco.
E como a respeito, tenho uma forma de educar
diferente da tradicinal. É curioso, mas a minha mãe acha que eu sou muito
boazinha. E que essa coisa de explicar tudo à minha filha não vale grande coisa
porque até há pouco tempo ela não percebia metade – nem falava, tão pouco. Pois
é, a verdade é que os miúdos percebem tudo, desde o momento que nascem.
Percebem porque ouvem mais do que nós. Ouvem o tom da nossa voz, sentem-nos
nervosos ou felizes e isso é comunicar e é chegar até mais longe do que nós,
adultos, chegamos. Isto eu sei e garanto-te – eles percebem, mesmo!
A maior parte das pessoas que eu conheço teve uma
educação mais autoritária. Os pais tinham aquela filosofia do ‘quero, posso e
mando’ e do ‘olha para o que eu digo mas não olhes para o que eu faço’. A maior
parte de nós apanhou uma palmada. Eu apanhei. E não me fez mal. E uma ou outra
vez fui castigada pelos meus pais por me ter portado mal ainda que fosse raro
calcar a linha. A verdade é que estou aqui, sem grandes traumas. Acredito que
tenho valores bons, que sou boa rapariga e que os meus pais fizeram o melhor
que sabiam e por amor.
A questão é então: Porque é que eu decidi abraçar esta causa da parentalidade positiva?
Porque acredito que posso fazer diferente. Porque respeito a minha filha e
porque a considero uma pessoa inteira. E não a consigo ver de outra forma. Porque
não acredito que uma palmada ensine mais do que uma boa explicação feita duas
ou três ou quatro vezes. Porque acredito que os pais é que são os adultos e
aqueles que têm de gerir as emoções, como agora se diz. Porque acredito que ‘amor
com amor se paga’ e ‘respeito com respeito se paga’.
Por isso, o primeiro grande passo é mudar a forma
como olhamos para a educação que damos aos pequenos e perceber o que é que
queremos. Claro que queres filhos felizes, com saúde e que respeitem os outros
e se respeitem a si próprios. Então se queres isso, age por influência. Mune-te
de uma boa dose de paciência e, acima de tudo, olha para eles como
pessoazinhas. Este é mesmo o primeiro grande passo. Pelo menos, e para mim,
foi.
No próximo
post vou clarificar, através de exemplos, o que é uma educação autoritária,
permissiva e positiva. Vou falar-te de exemplos e estratégias que uso e que
leio. Vou contar-te que por vezes falho, por vezes até sou permissiva, por
vezes tenho muito medo de ser autoritária mas lá está, emendo a mão. Porque
isto da educação é mesmo uma viagem e, como qualquer viagem, às vezes enganamo-nos
na estrada e temos de fazer marcha atrás. É assim comigo.
E eu fico
contente por aprender todos os dias e de partilhar isto contigo. Porque se
passas por aqui é porque estes temas fazem sentido e te questionas sobre aquilo
que podes fazer melhor, todos os dias, pelos teus filhos J,
certo? E é isso que também me dá vontade de continuar!