Os pais também se educam - e a Cocó, com a sua grande sabedoria, ensina-nos como....

9.5.11

Da Coco

Domingo, 8 de Maio de 2011


O pequeno homem no Portugal dos Pequenitos

Estava a ser um dia bom. Um bom almoço, primeiro, e a visita gostosa ao Portugal dos Pequenitos, com os miúdos a entrarem nas casinhas onde nós, com a idade deles, tambem entrámos, a tirarem fotofrafias nos mesmos varandins, nas mesmas escadas, nas mesmas ombreiras das mesmas portas onde nós também temos fotos, com palmo e meio de altura. Estava a ser gostoso e divertido até termos chegado a um sítio onde nos preparávamos para tirar mais fotografias. Só que, a certa altura, começámos a ouvir um pai aos gritos com o seu filho e a dar-he palmadas no rabo. «Tu nunca mais foges, ouviste? Ouviste??» Primeiro, não ligámos. Enfim, todos sabemos como um puto que foge pode levar-nos ao desespero. Mas depois o sorriso dos nossos putos congelou. Nós parámos de conversar. Porque os gritos continuavam e a sova aumentava de tom. E o choro do bebé (não tinha mais de 4 anos, constatámos depois) intensificou-se primeiro mas depois calou-se. E o homem prosseguia os gritos e a tareia. E aquilo não terminava. E eu tremia tanto, tanto, tanto. E se num primeiro momento pensei: «não posso fazer nada, o filho é dele», no momento seguinte os meus pés encaminharam-se para a tal casinha onde a cena se passava, e senti os pés do Ricardo também. E foi então que a minha boca gritou:
- Desculpe lá mas não chega já?
O Ricardo secundou-me:
- Você não está bom da cabeça, pois não? Acho que o miúdo já percebeu a ideia! Os meus filhos estão completamente impressionados com esta brutalidade.
O homem, um homenzinho baixo, encarnado de raiva e de cansaço, levantou-se e a criança largou a fugir.
- É que é a segunda vez que ele foge! - desculpou-se.
- E isso é razão para este espancamento??? Por amor de Deus! E se fosse bater em alguém da sua idade - atirei eu, completamente fora de mim.
A mãe baixou a cabeça, ele saiu dali. A criança estava completamente assustada. Eu larguei num choro incontrolável. E os meus filhos abraçaram-se a mim, nervosos, e a dizer que aquele homem era mesmo muito mau, coitadinho do menino.

Eu sei que este é o país real. Mas uma coisa é saber que isto existe, outra é ver e ouvir. Assistir.
Hoje eu gostava de ser um homem musculado, grande, e troglodita. Para puxar aquele homem para um canto, londe dos olhos do filho, e mostrar-lhe como dói levar pancada. O pior é que nunca lhe doeria tanto como dói a violência perpetrada por alguém que amamos. Como há-de ter doído àquele bebé a sova desmedida que levou da mão do pai que lhe caiu em sorte.
E assim, um dia que estava a ser bom ficou cinzento e silencioso.

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