Respeito Mutuo

30.7.20

Eu sei que é mesmo muito difícil para todos nós. Ainda assim, batallho com os pais com quem trabalho para que possam aceitar os filhos tal e qual eles são, trabalhando as suas forças e competências e estando atentos às suas fragilidades como potenciais pontos de força, até.

Eu sei que, mesmo quando não queremos, temos expectativas, achamos que os outros também as têm (em relação a nós) e assim a vida vai. Tantas vezes não deixamos os nossos filhos serem quem são com receio que percam por causa disso, que não sejam aceites ou que não se adaptem. Então tentamos moldar comportamentos, aceitar o inaceitável e transformamo-nos para nos adaptarmos às situações. Isso tem um lado positivo, claro: adaptação, empatia e sabedoria. Mas não falo dessas situações, como já deves ter percebido. O risco até pode não parecer grande: somos capazes de manter aquilo que nos parece importante e seguro.


Mas o preço é alto, sim. À conta disso, perdemos em autenticidade, desviamo-nos de relacionamentos verdadeiros e perdemos o sentido da nossa missão porque ela só pode existir quando nos centramos em quem somos, nos nossos valores e na aceitação que somos um excelente produto em desenvolvimento. Tal e qual os nossos filhos.

A nossa missão é corrigir e orientar sobretudo no que diz respeito aos limites e aos valores. E é respeitar a natureza de cada um deles. Já o disse aqui e em muitos sítios mas repito e peço-te que tomes atenção: "É só quando uma criança se sente aceite que ela tem a capacidade de desabrochar e só depois de se transformar. É apenas quando ele se sente aceite que consegue arriscar e ir mais longe." Então, da próxima vez que quisermos que ele vá pela norma, vamos pensar duas vezes se não seria melhor ajudá-lo a permanecer autêntico, respeitando os limites dos outros e os seus, mas autêntico. É difícil, sei bem. mas também tenho a impressão que se muitos de nós tivessemos aprendido isto em pequenos, teríamos chegado à vida adulta com essa prática facilitada. Imitar os outros, querer ser igual ou parecido, não só é uma forma de nos tirarmos valor como também faz com que não despertemos para quem somos e para a nossa verdadeira missão. Nunca devemos pedir para ser quem somos.

O meu filho mente-me…. E agora? - Parte II

23.7.20

Existem vários motivos para o facto de não devermos mentir e a quebra da confiança é uma delas.
É fácil explicar a uma criança que quando ela decide mentir, isso faz com que nas próximas vezes eu tenha o direito de não acreditar naquilo que ela me está a dizer porque nada me garante que ela não esteja a mentir, de novo. Explicado desta forma, as crianças percebem que mentir é um acto voluntário e que é uma escolha delas, com consequências naturais, como tudo na vida.
No entanto, quando uma criança mente deveremos também colocar a questão: será que eu não sou confiável? O que é que faz com que o meu filho me minta?
Não acredito que tenha a ver com o facto de gostarem mais ou menos de nós e sim com a possibilidade de nos termos tornado, aos olhos dele, em pessoas menos confiáveis – seja pelo motivo que for [eventualmente tem medo de ser castigado ou de ‘ouvir’]. Há uns anos atrás foi feito um estudo muito interessante.

Foram lidas 3 histórias a um grupo de crianças. O objectivo era averiguar qual delas tinha um maior impacto nas crianças, fazendo com que mentissem menos.

História 1 – Pinóquio – a humilhação de mentir e de ser apanhado, publicamente [nariz que cresce e não deixa margem para dúvidas]

História 2 – Pedro e o Lobo – as consequências da mentira contínua e das consequências [como explicado acima – deixar-se de acreditar na criança]

História 3 - George Washington and the Cherry Tree – história onde se evidencia a virtude da verdade.

A história com mais impacto foi a última – porque não só evidência de forma muito concreta as virtudes da verdade como também não humilha nem pune a criança, não trabalhando com base no medo e na vergonha. A seguinte foi a do Pedro e do Lobo. O nariz do Pinóquio que cresce quando mente parece não colar…

Não deixa de ser interessante verificar que não é porque ameaçamos ou humilhamos a criança que ela vai agir como deve de ser – se o faz é com base no medo.

O meu filho mente-me…. E agora? - Parte I

16.7.20

MENTIRA! Eles passam todos por estas fases.

Na primeira dizem a verdade, mesmo quando não lhes pedimos a opinião.

E depois vem a fase em que eles começam, aos pouquinhos, a mentir. De início aquilo vem misturado com histórias que se inventam e que se desejam e ainda não fica bem claro se é intencional ou não. E um dia percebemos que, na verdade, aquilo foi mesmo uma mentira. O que se faz agora?

1. Vínculo, vínculo, vínculo!

A coisa pode nem ser pesada mas é possível que o teu filho sinta que ou vai apanhar semelhante ralhete ou vais ficar decepcionada com ele. E sim, até pode ser... mas vamos lá pensar uma coisa - será que isso é mais importante do que ele estar à vontade para te contar a verdade?

Pára de gritar, de ameaçar, de lhe dizeres 'eu sei que estás a mentir...' naquele tom que faz a Angelina Jolie parecer uma menina de coro. Respira fundo e torna o ambiente seguro ao ponto dele não ter receio de te contar as coisas nem de te pedir ajuda para as resolver.

2. Então, correu bem a escola? Tens alguma coisa para me contar? Não? Ai não...? Sabes, é que fui chamado a uma reunião. A professora diz que andas a bater no André. E então, não tens nada para me contar?

Não lhe cries uma oportunidade para mentir. Embora a situação possa ser grave, diz-lhe directamente que sabes e que ele pode optar por ter já essa conversa contigo ou quando chegar a casa. Seja como for, a conversa vai acontecer.

3. Tu mentes?

Sim, tu? Aqui não se aplica o 'olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço'. Modela o comportamento. E sempre que faltares à verdade e ele estiver contigo, se achares que vale a pena, explica-lhe o porquê.

4. Porque é que não se mente?

Não é só porque é feio - é sobretudo porque é uma enorme perda de confiança no outro. Por outro lado, se nós não somos merecedores da verdade isso quer dizer que o nosso papel está em causa [segue para o primeiro ponto deste post!]. Explica-lhe isso: explica-lhe que a partir do momento em que se começa a mentir, deixamos de confiar na palavra uns dos outros.
E mesmo que a uma determinada altura possamos estar a contar a verdade, o que pode acontecer é não acreditarmos
porque, simplesmente, já mentimos tantas vezes que o outro tem todo o direito de não acreditar.
Podes passar a mensagem com histórias como as do Pedro e o Lobo ou as do Rato Renato.


5. Agradece

A verdade não se agradece mas a confiança e a honestidade em contar o que aconteceu agradecem-se e merecem ser sublinhadas. Porquê? Primeiro porque te escolheu como pessoa a quem contar a verdade [de uma coisa não tão positiva, ou de um segredo, de um receio, whatever...!]. E depois porque implica coragem. E a coragem é de louvar.

Quando crias um ambiente favorável em tua casa, estás a fomentar os laços de confiança e de amor [o tal, que é incondicional]. É em casa e com os de casa que eles se devem sentir a salvo. Cria esse lar. Com calma. E, quando os apanhares a mentir, pensa porque razão poderás ter feito isso quando eras mais pequen@.Talvez te ajude a seres mais empátic@.

Ser empreendedor

9.7.20

Há dias em que se consegue ver bem, ao longe... ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ser empreendedor e gerir projetos tem um lado espectacular que é a possibilidade de se concretizarem ideias e sonhos. Vê-se longe. Outro lado espectacular é o facto de me pôr à prova a cada momento. Sou convidada a ser criativa, a inovar e também a escutar-me. Mas por vezes o convite dá medo, deixa imensas dúvidas e o lado aparentemente leve da coisa nem sempre está lá. Há momentos em que me sinto exausta, sem saber muito bem para onde me virar, tamanha me parece a embarcação. Há momentos de dúvida e cansaço. Sei que tudo isso faz parte e o empenho que se coloca em cada fase de cada projeto também depende deste lado... lunar!⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Felizmente tenho a sorte de ter uma equipa incrível que gosta do que faz e, de facto, de estarmos metidos em projetos que deixam uma marca e fazem a diferença na vida das pessoas e das instituições. É isso que me faz seguir. Se me esquecer disso, é só voltarem a lembrar, ok?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Créditos da foto - filho mais novo⠀

Conflitos

2.7.20

Não, os conflitos não se devem apenas ao ciúme. Há mais motivos para que surja conflito entre irmãos e neste capítulo vais ficar a conhecê-los e a ser capaz de os identificar sempre que surjam ou o que é que os pode potenciar.
Também vamos falar na chegada do segundo filho, no filho favorito (imagino que possas gostar dos teus dois filhos de forma igual, mas há exceções e por isso é importante falarmos sobre o assunto!) e na importância de se saber partilhar.

É um capítulo que vais querer ler porque está cheio de informação e vai dar-te pistas que te vão clarificar as relações.

Fotos

25.6.20

Todos devíamos ter boas fotos nossas. Quando olho para estas fico vaidosa - parecem tiradas daquelas contas de bloggers de life-style.
Já me considerei muito mais fotogênica do que atualmente. Já fui mais nova, também.
Mas sabes uma coisa: gosto de me ver assim, com todas as assimetrias do meu rosto ou do do sorriso inclinado. De ter um olho maior do que o outro e de me achar bonita mesmo quando não estou com um look arrumado e arranjado porque, felizmente, percebo e sei que sou muito mas muito mais do que o que fica na lente ou em frente ao espelho. Sou as conversas que tenho, os passeios que dou, as escolhas que faço, as pessoas com quem convivo e sou, sobretudo, a paz que tenho.
Gosto de me ver no meu Porto e do passeio que eu e a @sofiacostafotografia demos, e pelas conversas boas que temos sempre.

Autocuidado e Auto-aceitação

18.6.20

Tenho reparado que há cada vez mais pessoas a falarem de auto-cuidado e auto-aceitação. E dou por mim a ter este receio que estas duas palavras se banalizem, quando são tão importantes. Vai uma distância grande querer aceitar quem somos e fingirmos que o fazemos porque se fala muito no assunto. Afinal de contas, se eu não gostar de mim, quem gostará?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E talvez seja justamente o auto-cuidado que dá um "empurrãozinho" à auto-aceitação. Mais forte do que o famoso 'se eu não gostar de mim' é, para mim, esta frase 'se eu não cuidar de mim, quem cuidará?' Cuidar de mim não é um sinal de egoísmo. É um sinal de enorme responsabilidade, como já aqui escrevi tantas vezes. E eu que tantas vezes estiquei a corda no que toca ao auto-cuidado e aos 3 pilares que são essenciais:
- sono
- alimentação
-exercício⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

E quanto mais estes 3 estão equilibrados na minha vida, mais sinto que o meu valor é maior. E esse valor é dado por mim. Interessante, esta conclusão, não é? Será que a auto-aceitação não virá mais facilmente com o auto-cuidado? Vale a pena pensar nisto, não vale?⠀⠀⠀

Festivais

11.6.20

Quem vai a festivais sabe que, a cada ano que passa, vemos cada vez mais crianças a acompanharem os pais. Bebés de colo, que ainda nem gatinham, a miúdos com 3 anos, que correm e saltam até miúdos mais velhos e mais altos que os pais.

Podemos achar que são pais cool, mas a verdade é que estamos perante um fenómeno que vai além disso. Uma vez alguém perguntou-me se os pais de hoje desejam ser amigos dos filhos e se há algum problema nisso. Respondi dizendo que precisava de perceber melhor o que é ser-se, para essa pessoa, amigo dos filhos.

Mas, pegando nessa questão, atrevo-me a dizer que esta geração de pais deseja, entre muitas outras coisas, tirar satisfação da sua relação com os filhos e do seu papel enquanto pais. O objetivo poderá não passar por ser 'amigo' dos filhos mas antes partilhar com eles aquilo que nos dá satisfação. Mais do que amigos, queremos fazer com eles aquilo que nos dá gosto. 'Este gosto por música foi-me passado pelo meu pai que, desde sempre, nos fez escutar música em casa e nos levava a festivais.'

Todos os sonhos do mundo

4.6.20


É incrível tudo aquilo que os miúdos são capazes de criar e fazer quando lhes damos a possibilidade de escolherem e de darem o seu melhor, tendo em conta apenas a sua singularidade.Uma experiência extraordinária acompanhar o dia-a-dia deste grupo tão interessante!

É justamente este ponto que faz toda a diferença quando queremos criar miúdos incríveis. Quando lhes damos a possibilidade de experimentarem, de escolherem, de recomeçarem e até de inventarem soluções. Ao sentirem-se envolvidos nas situações, é mais fácil desejarem ser responsáveis pelas decisões que tomam. Porque motivo temos, tantas vezes, dificuldade em dar-lhes o poder da decisão, se adaptado à sua idade e à sua maturidade?

Uma das formas de os ajudarmos nesta caminhada é simplificando o nosso papel. Escrevi sobre isso aqui. E esta estratégia é também uma das formas que existem para reduzir a tensão e os jogos de poder.

Todos os miúdos têm a possibilidade de serem incríveis porque têm neles todos os sonhos e oportunidades. Qual é o nosso papel ao lado? De que forma podes ajudar os teus filhos nesta caminhada?

Agitação

28.5.20

Apesar de haver cada vez mais movimentos para abrandarmos a nossa vida e que nos lembram que devemos estar mais presentes no momento, continuo com a impressão que, ainda assim, muitos de nós levamos vidas cada vez mais agitadas, com imenso stress, solicitações e distrações. Mais, muitos sentem-se culpados por não conseguirem abrandar. O mesmo se passa com os nossos filhos - há cada vez mais avaliações, trabalhos de casa, solicitações. Passamos horas em trânsito e no trânsito, chegamos tantas vezes arrasados a casa e a vida parece passar sem que por ela passemos. E bolas, já estamos quase em Junho!

É nossa responsabilidade proteger os nossos filhos destas situações que provocam danos - a forma como estamos a viver não  é sustentável.

Estratégias

21.5.20

E quando as estratégias não resultam? E quando usamos e fazemos tudo 'by the book' e nada parece funcionar? É frustrante, no mínimo, certo? Mas agora senta-te aqui comigo um bocadinho. Será que estás a levar as estratégias a sério? Será que estás a ser consistente, insistente até? Ou será que experimentas 3 dias e, na ausência de resultados, passas a outras estratégias ou deixas, simplesmente, cair?
Não há grandes milagres desta forma, pois não?

No outro dia uma mãe dizia-me que ia comprar o "Para de chatear a tua irmã e deixa o teu irmão em paz" para que os filhos o lessem e parassem de se pegar. Também já me acontece ouvir, a propósito do Berra-me Baixo coisas do tipo 'Quem devia ler este livro é a minha filha'. A Parentalidade Positiva não é sobre as crianças. É sobre nós e sobre a nossa melhoria contínua. Dá trabalho? Claro que dá? Há dias em que nos apetece desistir? Com certeza? Então o que é que tem de bom? Tanta coisa... e uma delas é tornar-nos melhores pessoas. E só isso já é extraordinário. Porquê? Porque inspiramos os miúdos a serem iguais.

Mães

7.5.20

"Não há mães perfeitas mas em melhoria contínua."
Acredito tanto nesta frase que mandei fazer uma pulseira para me lembrar disto todos os dias. Para lembrar outras tantas quanto eu que desejam ser melhores todos os dias mas não perfeitas.
Aliás, quem é que define perfeição ou imperfeição? O que conta mais? Acredito que a capacidade em evoluir, adaptar-se e ser humano.

"É preciso coragem para crescer e ser quem realmente somos." E.E.

Até que ponto temos o direito de partilhar a vida nos nossos filhos, online?

2.5.20
Até que ponto temos o direito de partilhar a vida nos nossos filhos, online?
Não estou a falar da publicação das fotos. Estou a falar da construção de uma narrativa, subjectiva, e que é feita por nós (mães ou pais).

O assunto surgiu durante a Certificação em Parentalidade e Educação Positivas. Falávamos de intimidade e de como, ao longo dos tempos, as palavras associadas foram desaparecendo. Intimidade significa: o que é secreto, o que apenas nos diz respeito, segurança.

Pergunto-me se temos o direito de partilhar a vida dos nossos filhos, numa narrativa que conta as suas frustrações, as suas fragilidades,... a sua vida, através do nosso ponto de vista.

"O João Maria chegou a casa chateado. Disse que o seu melhor amigo andava a ignorá-lo há uma semana e que não conseguia perceber o que estava a acontecer. Coração de mãe sabia que alguma coisa não estava bem mas nunca imaginei isto. O João Maria andava em baixo, irritado e até mal educado. Afinal, sentir-se traído era a explicação para isto. Falámos sobre o assunto, ele chorou e o meu coração ficou pequeno. São as dores de crescimento."

Este texto, que acabei de inventar, garante que a minha audiência se identifica com as minhas dores e com o meu sofrimento. Vejo a quantidade de likes aumentar, leio imensos comentários que relatam histórias semelhantes. E, com isto, um sentimento de pertença e de aconchego.
A história deixa de ser só sobre o João Maria mas passa a ser também, sobre mim, porque me revejo. Na verdade, disse alguém naquela certificação, são histórias que nos inspiram e onde nos revemos. E eu sei que assim é. Percebemos que estamos no mesmo barco. Tomamos consciência que, afinal, não é apenas connosco. Mas, se só olhamos para nós e para a nossa dor, não olhamos para o João Maria cuja história está escarrapachada num feed ou num blogue. E isto, senhores, é só indecente! O João Maria podia ser eu. E partilharem as minhas fragilidades, dores, confessadas a uma amiga, seria a quebra de confiança para todo o sempre.
Mas, dia após dia, post após post, a história do João Maria é colocada (para sempre) online, de acordo com a subjectividade de quem a escreve. No dia em que o João Maria crescer, e quiser construir a sua própria história não poderá fazê-lo, livremente, sem que a mesma esteja, para sempre, indexada à história que narraram anteriormente.

João Maria não é uma personagem de um livro. João Maria é uma pessoa, inteira, tal e qual como eu, cuja mãe ou o pai decidiram usar para ilustrar os seus textos, em troca de uma presença online. Se pensas que é algo sem importância e que todos fazem, pensa de novo. Alguém, que não ele, escreveu sobre ele. Escreveu acerca das suas dores, fragilidades, tristezas. Colocou fotos dele na internet. Uma vez na web, para sempre na web. João Maria terá, para sempre, a sua história, ligada àquela que se tornou pública.

Se continuas a achar que, ainda assim, o importante é que te revês nessas histórias então não estás a ver a questão fundamental e que é o direito à e intimidade da criança e à proteção da sua história e intimidade. A única pessoa que tem o direito de falar sobre as suas fragilidades, dores e fraquezas é o próprio. Seguramente, já ouviste falar da proteção do superior interesse da criança. Aqui tens um belo exemplo disso.


Recordo-me quando conheci as duas filhas de uma blogger, há muitos anos. Encontramo-nos e tive uma sensação constrangedora: não conhecia aquelas meninas mas sabia que uma era birrenta e que a outra atacava a irmã, sem motivos, diariamente. Sabia disso porque lia os posts. Senti-me mal em ter a minha visão já pré-formatada por aquilo que a mãe já tinha escrito e não consegui dissociar-me disso, mesmo tendo consciência disso.

Deixa-me ainda contar-te mais um aspecto importante: Quando fui diretora de recursos humanos, sabes o que fazia quando me chegavam CVs? Pesquisava sobre a pessoa nas redes sociais e online. Em menos de 10 minutos conseguia encontrar muita informação. Ficava a conhecer os hobbies, os gostos, quem eram os membros da família. O tipo de fotos que tirava, os lugares que frequentava. Os amigos que tem. Mas não é isso que todos fazemos, quando queremos saber mais sobre alguém?
Uma vez na net, para sempre na net.







Dia

30.4.20

O que mais gosto do meu dia? Quando estamos todos em casa, cedo. E jantamos mais cedo. Já aqui escrevi uma vez e o sentimento é o mesmo. O melhor do dia é quando fechamos a porta da entrada e encontramos o nosso mundo aqui. E isso não tem preço 💖

Quem disse que não se pode bater?

28.4.20


Ana, 4 anos, chega a casa e diz à mãe que o António lhe tirou a saia e ficou a olhar para ela, só de roupa interior.
- O quê? Como assim? Porque deixaste que ele fizesse isso contigo? Porque não procuraste ajuda da professora?
- Porque ela não estava lá e quando lhe contei ela não podia fazer nada porque não tinha visto. Mãe, eu não sabia o que fazer…
- Da próxima vez tens de te defender, não podes deixar que te façam isso.
(…)
- Mãe, o António hoje partiu a tiara que levei para a escola.
- E tu? De novo, esse miúdo?
- Eu disse que ele não podia fazer aquilo e que não era justo.
- Fizeste bem, espero mesmo que esse menino aprenda que não se pode fazer estas coisas.

Cristina, 10 anos, relata à mãe que a Júlia a empurrou, mais uma vez, no recreio. Ela não chega a cair, mas o grupo das meninas ri-se. A mãe pergunta-lhe o que aconteceu dessa vez. A menina não sabe dizer. Mas admite, firme, que se afastou delas porque prefere ficar sozinha. O pai não aguenta e responde:
- Da próxima vez, empurra-a também. Dá-lhe. Já te disse isso mil vezes. Porque não o fazes?
- Pai, eu queria ter-me defendido… mas a minha mão não obedece ao que lhe peço.

Sabes como se trata um vaso com uma orquídea e um vaso com cebolinho? Não é da mesma maneira. Um pede água uma vez por semana e luz. O outro também pede luz, mas precisa de água todos os dias. O mesmo se passa com as crianças - não podemos servi-las nem pedir as mesmas coisas quando são diferentes.


Vamos falar muito a sério sobre um tema que me preocupa, imensamente, e que é fruto da qualidade dos textos que circulam nas redes sociais e de um discurso de não violência que cria crianças incapazes de se defenderem. Não somos melhores pais porque dizemos aos nossos filhos que não podem bater. Somos melhores pais quando ensinamos os nossos filhos a expressarem as suas necessidades, a controlarem os seus impulsos e a saberem comunicar como deve ser.


Todos desejamos um mundo sem violência e por isso precisamos de prestar atenção à forma como ajudamos os nossos filhos a não serem violentos.


Há crianças que são mais agressivas, por natureza ou pelo ambiente onde vivem. E há outras que são mais serenas ou medrosas. Falar de não-violência, ensinar a gerir o impulso e todos os restantes temas associados a este assunto, tem de ser feito de acordo com a criança e o seu contexto. Primeiro, porque num caso eu quero serenar a agressividade, ensinar a falar em vez de bater e, no outro, quero incentivar a coragem, quero promover a expressão verbal e segurança.

Associado a isto, preciso de saber que, nas idades em que estes assuntos estão a ser transmitidos, as crianças são literais. Ora, quando digo (repito e sublinho) a uma criança que não sabe defender-se que “não se bate”, ela terá muita dificuldade em defender-se. A Cristina, na história acima, com 10 anos, queria defender-se, mas a mão dela não obedecia. A Ana, de 4, por saber que não se bate, por não conseguir reagir nem gritar - pode continuar a não saber fazê-lo quando tiver 14 ou 20 anos e for agredida de outra forma. O sufoco do grito, o pontapé que não sai, criaram, ao longo dos anos, raízes no discurso do “não se bate” e do “se não souberes o que fazer vai pedir ajuda”. Mas os miúdos não pedem ajuda porque, depois, para além de coitadinhos, são queixinhas.


Mas… se bater não está certo, que faço?
Primeiro, quem é disse que bater não está certo?
Se me vêm agredir, se vêm tentar fazer-me mal fisicamente, garanto-te que sei responder na mesma moeda. E dizes tu: mas isso é defenderes-te.

É defender-me depois de ter desconstruído uma série de crenças que ouvi na minha infância.

É urgente ter espírito crítico e ler com atenção o que se coloca pela rede fora. Milhares de páginas defendem o conceito de uma vida sem violência, incentivando o discurso do “não se bate” para TODAS as crianças. Mas esquecem-se de que as crianças são diferentes e ignoram que, nesta pouca idade, estas são literais. E ser literal significa que “não bater” e “defender-se” é a mesma coisa. No pior dos casos, não percebem a diferença… Como o “não se bate” é a frase mais repetida, acabam por não bater, mesmo que isso implique deixarem-se agredir.

Então… Que fazer?
Primeiro: eliminar a frase “não se bate” para estas crianças, de uma vez por todas.
Segundo: ensinar o que é respeitar relações onde nos sentimos seguros. Como são e como nos sentimos quando estamos bem.
Terceiro: ensinar à criança que se não gostou de alguma coisa precisa de comunicar à outra criança isso mesmo. Da forma que entender e souber. E no caso da criança, que é reservada, não se sabe exprimir, perguntar: posso bater? Respondemos simplesmente: faz o necessário para que a outra criança entenda que não gostaste. Explora com ela o que pode fazer, escuta-a e deixa ver o que lhe faz sentido. Não lhe retires a autorização de se defender com o “não se bate”. Porque, volto a sublinhar, se a criança ainda for literal, pode não conseguir agir nem, muito possivelmente, gritar. E vamos sempre a tempo de corrigir, caso seja preciso.


Não estamos a incentivar a violência, mas a expressão livre do que sentimos, do que gostamos e do que não autorizamos, nem queremos. Colocar a tónica no“não se bate” tem um impacto gigante na vida destas crianças, ao ponto de não saberem fazer mais nada do que… não bater. Mas não vão comunicar as suas necessidades nem o que desejam. Como disse, estas crianças - e não as outras. Porque, repito, para o caso de ter escapado alguma linha, as crianças que são agressivas necessitam de acompanhamento e de ajuda, como as agredidas, mas a outro nível.


Por isso, gente boa, é urgente ter sentido crítico. Frases bonitas de paz e amor são muito inspiradoras, mas não servem para todos. No dia em que te agredirem ou te ameaçarem, tu quererás saber gritar, esticar esse peito, olhar bem nos olhos do outro com coragem, sabendo que dentro de ti tens tudo o que precisas para te defender - seja através da força física ou usando o sentido de humor. Mas nada te faltará. Certo?

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